A franquia Alien | Parte #3: “Prometheus”

“Prometheus” (2012) é, em certo sentido, o “Episódio 1: A Ameaça Fantasma” da série “Alien”. Felizmente, no entanto, o retorno de Ridley Scott à ficção-científica está num outro patamar em relação à retomada colorida e enfadonha que George Lucas fez do universo “Star Wars”.

Após “Blade Runner – O Caçador de Andróides” (1982) ter sido um imenso fracasso comercial em seu ano de lançamento, Scott partiu para voos em outros gêneros. Épicos históricos, filmes policiais e de ação, comédias, romances… O diretor britânico investiu num ecletismo que vez ou outra até gerou bons frutos (“O Gângster”, de 2007, por exemplo), mas que não apagou do público cinéfilo sua imagem de “o sujeito que fez dois dos maiores clássicos da ficção-científica”. Por isso, “Prometheus” é mais que um prequel de “Alien, o Oitavo Passageiro” (1979), é o responsável por trazer a série de volta aos seus melhores dias, é a concretização de um desejo antigo de reencontro de um grande diretor com o gênero que lhe deu essa grandeza. Em suma, a possibilidade de matar uma saudade há muito alimentada.

Assistindo ao filme pronto, fica difícil entender porque o diretor perdeu tanto tempo longe da ficção-científica, já que o longa é um trabalho admirável, que funciona tanto como obra independente quanto como um retorno enriquecedor à série. Êxito duplo que, para além da competente direção de Scott, também deve ao belíssimo roteiro de Damon Lindelof (um dos criadores da série “Lost”, vale lembrar) e Jon Spaihts. Não há nenhum vestígio de preguiça mental no texto do filme, nenhuma tentativa de mastigar informações para o espectador, o que torna os roteiristas responsáveis diretos pela enxurrada de textos na internet tentando explicar “Prometheus”.

Curiosamente, apesar das muitas e esperadas conexões com a franquia “Alien”, a nova ficção-científica de Scott guarda também algumas semelhanças justamente com “Blade Runner”, a última incursão do diretor no gênero. Tanto a busca por respostas existenciais empreendida por Elizabeth Shaw (Noomi Rapace), Charlie Holloway (Marshall Logan-Green) e Peter Weyland (Guy Pearce), quanto a própria natureza do personagem David (Michael Fassbender) remetem diretamente aos replicantes do longa de 1982. A linha “existencialista” que a narrativa de “Prometheus” segue aproxima-o muito mais do longa com Harrison Ford do que do suspense claustrofóbico protagonizado por Sigourney Weaver.

E na verdade, “Prometheus” não é o “Episódio 1” da série “Alien”. São diversos os motivos, alguns deles bastante óbvios, como o trabalho infinitamente melhor de Scott com seus atores (habilidade que George Lucas nunca possuiu), responsável, por exemplo, pelos excelentes desempenhos de Rapace e Fassbender, ou a capacidade que o diretor possui em construir uma ficção-científica séria, sombria e carregada de tensão – algo muito distante dos enfadonhos, longos e coloridos novos episódios de “Star Wars”. No entanto, a maior diferença entre as duas obras em questão está no que elas de fato representam para as franquias das quais fazem parte. Enquanto “A Ameaça Fantasma” e suas duas sequências se propunham simplesmente a contar “como tudo começou”, sem acrescentar elementos verdadeiramente novos à mitologia de sua série, “Prometheus” faz justamente o contrário.
Scott e seus roteiristas até dão grande importância à explicação de enigmas que vêm de seus predecessores – afinal, um dos maiores prazeres de sua narrativa está em responder quem era aquele ser gigantesco sentado numa cadeira no planeta LV-426 no “8º Passageiro” –, mas o coração de seu trabalho, o segredo de seu sucesso está na capacidade de inserir novos e instigantes elementos na série “Alien”. Os “engenheiros” e todas as discussões trazidas com eles são o melhor exemplo disso. Origem da vida, criacionismo versus evolucionismo, relação entre criador e criatura… quem diria que de algo que começou no ambiente claustrofóbico da Nostromo sairiam questões dignas de um “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (1968)?


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Ficha Técnica



Prometheus
Prometheus (2012 | 124 min.)

Gênero: Ficção-científica, Thriller, Aventura
Direção: Ridley Scott
Elenco: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Charlize Theron, Idris Elba, Guy Pearce, Logan Marshall-Green, Sean Harris, Rafe Spall e Emun Elliott

Uma equipe de exploradores descobre novos indícios sobre as origens da humanidade na Terra, levando-os a uma aventura impressionante pelas partes mais sombrias do universo. Eles deverão vencer uma batalha cruel para salvar o futuro da raça humana. O nome do filme, Prometheus, é também o nome da aeronave utilizada por um grupo seleto de pessoas para investigar os fragmentos do “DNA alienígena”.


Sobre Wallace Andrioli


Historiador, cursa atualmente doutorado, no qual estuda as relações entre cinema e história em períodos autoritários. Viciado em cinema, mantém blogs de crítica desde 2003. Costuma se identificar bastante com os personagens de Woody Allen.