É inevitável a decepção para quem assiste a “Asas do Desejo” (1987) esperando algo próximo de “Cidade dos Anjos” (1998), seu remake norte-americano comandado por Brad Silberling. Apesar de ambos os filmes contarem a história de um anjo que se apaixona por uma mortal e que, por isso, decide viver como humano, há um diferença gritante no tom que eles adotam. Wim Wenders passa longe do romance melodramático vivido pelos personagens de Nicolas Cage e Meg Ryan. Seu filme tem outras ambições.
Afora o trocadilho mais que óbvio com o apelido da cidade, não há razão alguma para “Cidade dos Anjos” (1998) ser ambientado em Los Angeles. Sua história poderia ser contada em Nova York, Boston, San Francisco, inúmeros outros locais, e teríamos exatamente o mesmo filme. Já em “Asas do Desejo”, a Berlim da década de 1980, com sua vida ao mesmo tempo agitada e melancólica, com seu famigerado muro, símbolo de opressão e espaço de expressão, é praticamente um personagem. De certa forma, Wenders fez também um filme sobre aquela cidade, e é difícil, hoje, pensar em Berlim sem se remeter diretamente às imagens em preto-e-branco deste longa-metragem.
Mas a maior discrepância entre as duas obras está mesmo no papel que o romance entre o anjo e uma humana assume em suas respectivas tramas. “Cidade dos Anjos” é sobre esse amor, tudo em sua narrativa gira em torno disso. Infelizmente, no entanto, Silberling e o roteirista Dana Stevens optam por seguir à risca a cartilha dos romances água-com-açúcar produzidos todos os anos em Hollywood, resultando em um filme meloso, forçado, sem um pingo de delicadeza. O golpe final do roteiro, por exemplo, é claramente uma tentativa de levar o espectador às lágrimas a qualquer custo.
“Asas do Desejo”, por sua vez, é o oposto disso: a atração que o anjo Damiel (Bruno Ganz) sente por Marion (Solveig Dommartin), trapezista francesa de um circo que passa pela cidade, é um importante elemento, mas não o único, que compõe o desejo do personagem de se transformar num mortal. O espectador aproveita junto com Ganz a curiosidade por cada gesto, cada gosto, cada sensação humana, ao mesmo tempo que se encanta verdadeiramente (sem subterfúgios melodramáticos) por sua paixão por Dommartin. A cena que registra o encontro do casal, num show de Nick Cave, é mais bonita que todos momentos de Cage e Ryan juntos na versão americanizada.
Seis anos depois do letreiro que anunciava ao fim de “Asas do Desejo” que aquela história continuaria a ser contada, Wim Wenders cumpriu o prometido e lançou “Tão Longe, Tão Perto” (1993), a tão aguardada sequência de seu maior sucesso. Nela, o protagonista é Cassiel (Otto Sander), anjo que, no filme anterior, permanecia o tempo todo acompanhando Damiel e, agora, opta por seguir seu exemplo e também abraçar a mortalidade. Mas as semelhanças com “Asas do Desejo” param por aí.
A partir do momento em que Cassiel se torna humano, Wenders conduz a trama por caminhos no mínimo estranhos, envolvendo um punhado de coadjuvantes e subtramas que, no fim, acrescentam muito pouco à trajetória do protagonista – que, aliás, passa de anjo sisudo a humano apatetado, dando por vezes ao filme um tom cômico que parece pouco apropriado. Curiosamente, “Tão Longe, Tão Perto” só funciona realmente quando Bruno Ganz está em cena, trazendo breves momentos da alegria cotidiana do agora homem de família Damiel.
Possível sintoma de que Wim Wenders se equivocou na escolha do foco de sua história. Continuar simplesmente com Damiel e Cassiel como protagonistas talvez fosse uma opção pouco corajosa por parte do diretor/roteirista, mas que certamente faria dessa sequência um filme digno da obra-prima “Asas do Desejo”.
Ficha Técnica
Asas do Desejo
Der Himmel über Berlin (1987 | 128 min.)
Gênero: Drama
Direção: Wim Wenders
Elenco: Bruno Ganz, Otto Sander, Solveig Dommartin, Peter Falk e Curt Bois.
Um anjo (Bruno Ganz) que observa a população de Berlim passa a desejar se transformar em humano após se apaixonar por uma mulher (Solveig Dommartin).
Tão Longe, Tão Perto
Faraway, So Close! (1993 | 144 min.)
Gênero: Drama
Direção: Wim Wenders
Elenco: Otto Sander, Bruno Ganz, Peter Falk, Willem Dafoe, Natassja Kinski, Lou Reed, Rüdiger Vogler, Solveig Dommartin e Mikhail Gorbachev.
O anjo Cassiel (Otto Sander) decide seguir o exemplo de seu amigo Damiel (Bruno Ganz) e se transformar em humano, mas acaba se envolvendo com criminosos e com uma família com passado nazista.
Cidade dos Anjos
City of Angels (1998 | 114 min.)
Gênero: Romance
Direção: Brad Silberling
Elenco: Nicolas Cage, Meg Ryan, Dennis Franz, Andre Braugher e Colm Feore.
Um anjo (Nicolas Cage) se apaixona perdidamente por uma médica humana (Meg Ryan) e decide abandonar sua condição de imortalidade para viver com ela.








Gosto dos dois filmes, mas achei que Wim Wenders tem uns lances pedantes em “Asas do Desejo”. E a ideia de colocar o Peter Falk como um ex-anjo é boba e não convence. Pelo menos os roteiristas de “Cidade dos Anjos” não colocaram um personagem que forçou tanto a barra como o de Dennis Franz.
Dito isso, é inegável que a maioria dos diálogos filosóficos do alemão se sobreponham ao romance hollywoodiano. Mas Los Angeles é mais superficial, enquanto a própria situação política e histórica de Berlim exigia, de certa forma, um tratamento aprofundado do roteiro (parece mea culpa, mas não é rs).
Puxa, Lucie, discordo de você quanto à participação do Falk. Ela me parece totalmente coerente com a proposta do filme, até porque “Asas do Desejo” tem um quê de homenagem ao cinema – basta lembrarmos da dedicatória ao final do filme.
O Dennis Franz é a melhor coisa de “Cidade dos Anjos”, o que não quer dizer muito…