As Maiores Bobagens do Oscar – Parte I


Listas são sempre polêmicas. Essa então, promete bater recordes. Longe de ser imparcial, é minha análise sobre as grandes injustiças da história do Oscar, incluindo até mesmo trabalhos reconhecidamente bons mas que não mereciam suplantar outros que foram mais importantes, impactantes ou que se tornaram referência nos anos que se seguiram.

Se você leitor, não concordar com uma (ou mais) lembranças feitas aqui, já está convidado a comentar – sempre mantendo a educação e por favor, argumentos – e a dizer suas ideias a respeito da premiação.
Essa é a apenas a primeira parte da brincadeira, falando das bobagens entre 1990 e 2011. Muito breve falaremos das demais décadas da festa de entrega do Carecão Dourado de Hollywood.

O ANO EM QUE A VELHINHA GANHOU A GUERRA

Com a Guerra do Golfo na janela, a Academia entregou seus prêmios e consagrou um dos mais medíocres filmes indicados a categoria principal como o mais importante do ano. Falo, claro, de “Conduzindo Miss Daisy”, uma daquelas histórias que os americanos acham que ajuda a luta contra o racismo mas que na verdade tem efeito exatamente contrário, reforçando estereótipos e condutas. Apesar da dupla principal (Jessica Tandy e Morgan Freeman) estar muito bem, é inadmissível que um filme desse tamanho tenha vencido outros muito mais importantes e relevantes como o drama de guerra “Nascido em 4 de Julho”, a fantasia Cult “Campo dos Sonhos”, o filme de inspiração “Sociedade dos Poetas Mortos’ e a história real do artista plástico Christy Brown – que rendeu a Daniel Day-Lewis um Oscar mais do que merecido – “Meu Pé Esquerdo”. Outra bobagem aconteceu na categoria dos roteiros adaptados, quando novamente a velhinha “roubou” o careca de trabalhos mais interessantes, como os já citados “Nascido em 4 de Julho”, “Campo dos Sonhos” e “Meu Pé Esquerdo”, e “Inimigos”, uma História de Amor assinado pelo veterano Paul Mazursky em companhia de Roger L. Simon.




O ANO DA MATILHA

Essa é polêmica. Apesar de gostar bastante de “Dança com Lobos” e não considerá-lo uma bobagem de proporções épicas como tantas outras nessa lista, é impossível negar que “Os Bons Companheiros”, de Martin Scorsese, além de ser um filme mais “redondo” sem excessos, exageros visuais ou narrativos, resistiu muito melhor ao teste do tempo e hoje é referência a diversas outras produções. Em 1991, além de perder o Oscar de Melhor Filme para o drama de Kevin Costner (concorriam também o tocante “Tempo de Despertar”, o Cult “Ghost” e a terceira parte da trilogia do chefão de Coppola, “O Poderoso Chefão Parte III”), “Os Bons Companheiros” ficou longe do prêmio de roteiro adaptado – perdendo novamente para a alcateia de Costner – e Scorsese ficou sem levar o careca de direção para casa, perdendo para o galã e diretor vindo dos campos do Iowa.



MARISA WHO?

Marisa quem? Por Primo que? Essa foi a reação que – imagino – quase todos os convidados da festa de entrega dos Oscars de 1993 sentiram ao ver revelada a vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante. Uma muito jovem e profundamente surpresa Marisa Tomei subiu ao palco para receber este que foi o primeiro prêmio da noite. Concorria com a lendária Vanessa Redgrave, com Miranda Richardson, com a pouco lembrada Judy Davis e com a sempre simpática Joan Plowright.



VAMOS PREMIAR TOMMY

Mais uma polêmica na lista. Eu sei, Tommy Lee Jones é um ator competente. Sei que “O Fugitivo” é um filme intenso e que sua interpretação é realmente muito boa. Também sei que o Globo de Ouro daquele ano já tinha premiado Jones, mas, como esquecer o perturbado vilão nazista interpretado com uma virulência intensa por Ralph Fiennes? Ou mesmo o sutil e poderoso personagem de Pete Postlethwaite em “Em Nome do Pai”? Novamente, a Academia parece ter preferido dar o prêmio para um “quase” veterano, que nunca tivera tantas chances de vencer, a reconhecer trabalhos mais importantes e que diziam muito mais do que um simples agente do FBI.



CAIXA DE CHOCOLATES 3 X ROYALE COM QUEIJO 1

Talvez a maior de todas as polêmicas dessa lista. Sim, “Forrest Gump”, amado por muita gente e objeto de culto para outros, é daqueles filmes fáceis de gostar, pois é tão simplista e simplório em suas ideias que fica difícil não se entreter com o filme. Porém, é de uma nulidade histórica e dotado de um personagem principal que não luta para ter nada, não conquista nada. Tudo na vida de Gump vem “na sorte”, ou talvez, porque ele seja um homem tão bom e perfeito em suas limitações que “Deus” resolveu premiá-lo. O que importa é que Gump ganhou três vezes do mais importante e relevante filme norte-americano dos anos 90: “Pulp Fiction”. Você pode até não gostar do filme de Tarantino (o que acho bem difícil, mas enfim) mas negar sua importância para o cinema é caso de internação.

Por isso, quando Gump levou os Oscars de filme, montagem e direção em confronto direto com o filme de Tarantino chegou a ser ofensivo. Filme por filme, Gump não apresenta nada – realmente – de novo, é a mesma fórmula repetida em diversos outros filmes, aqui ganhando um escopo pretensioso já que vimos o nosso herói envolvido em quase todos os eventos americanos importantes do século XX, sem querer. Já “Pulp Fiction”, além de ser moderno em sua abordagem, é uma coleção impagável de diálogos certeiros e interpretações acima da média de gente fadada ao nicho ou ao esquecimento.

É o caso de John Travolta que perdeu o Oscar de melhor ator para um insosso Tom Hanks, muito inferior ao seu trabalho anterior em “Filadélfia” (que lhe valeu um justíssimo Oscar), que ganhou com sua persona e porque seria complicado imaginar a Academia dando um Oscar a um matador. Uma pena, já que o icônico Vincent Veja ressuscitou a carreira de Travolta e transformou-o novamente em astro.

Quanto à montagem é um daqueles crimes supremos do cinema, onde vale optar pela simplicidade óbvia de Gump, em detrimento da criatividade de Sally Menke em uma proposta nova e diferente do que Hollywood vinha vendo. E nem vamos entrar no mérito da direção, já que além de criar diálogos sublimes (o único prêmio da noite para “Pulp Fiction” foi seu roteiro original) Tarantino – que já havia feito isso em “Cães de Aluguel” – dá um passo a mais tanto na escolha de ângulos para sua câmera, quanto para a capacidade de intercalar muitas histórias sem no entanto fazer o filme ficar perdido.

E existe ainda aquele confronto em que Gump não enfrentou Vincent Veja, mas encarou outro grande filme de 1995: “Um Sonho de Liberdade”, que teve Freeman indicado com melhor ator e também recebeu indicação a melhor filme. Assim, Forrest levou o prêmio de roteiro adaptado, outra atrocidade, já que estamos comparando a história do rei do acaso com a emocionante e empolgante história sobre Andy Dufresne, o bancário preso injustamente e que consegue fugir da cadeia em uma das mais incríveis sequencias do cinema. Isso sem contar Morgan Freeman, em um papel que se transformou em ícone.

Longe de dizer que Gump seja um filme desprezível, mas jamais no mesmo nível de “Pulp Fiction” ou “Um Sonho de Liberdade”, filmes tão diferentes entre si, mas tão melhores que a fábula do corredor do Alabama.



A INVASÃO WEINSTEIN – PARTE I

Acho que 1997, posso estar enganado, marca a primeira investida violenta do produtor Harvey Weinstein no Oscar. Nesse ano ele conseguiu emplacar o medíocre e chatíssimo “O Paciente Inglês” na cerimônia. Não só conseguiu a indicação como uma série de prêmios (9 no total), entre eles melhor filme, melhor direção e melhor atriz coadjuvante. Novamente, as tais “regras da Academia” se valeram aqui: um filme com cara de épico dramático, romântico, cheio de ingleses venceu a policial caipira de Minnesota, no espetacular “Fargo”. A direção “inspirada” em David Lean de Anthony Mingella venceu Joel Coen (por “Fargo”), Milos Forman (pelo ótimo trabalho histórico e intenso em “O Povo contra Larry Flint”) e o brilhantismo de Mike Leigh no visceral “Segredos e Mentiras”. A Academia optou pelo óbvio, pelo lugar-comum, em vez de apostar em propostas mais interessantes e duradouras.

Ao menos, Paciente não conseguiu vencer o prêmio de roteiro adaptado (prêmio esse de “Na Corda Bamba”) – embora o prêmio fosse merecido por “Trainspotting” que, assim como “Pulp Fiction”, é um filme que marca uma geração, criou uma série de imitadores e ainda hoje é referência. Se a Academia quisesse ousar, mas para outro caminho, o prêmio para a adaptação mais do que fiel de Kenneth Branagh para “Hamlet” é outro trabalho muito bem realizado e que talvez perca pontos já que sempre tem a sombra cinematográfica das adaptações de Laurence Olivier como companhia.



NEM UM ICEBERG TIRA SEU PRÊMIO

Titanic”, por muito tempo o filme mais visto na história do cinema, dono da canção tema mais chata de sua história. O épico romântico de James Cameron (AKA “Rei do Mundo”) é um primor de técnica, mas um lago vazio em termos narrativos. Foi a tentativa de Hollywood em se aproximar das bilheterias e dar seu aval a um filme consagrado pelo público, dizer: “hey amiguinhos, nós também comemos pipoca e choramos com a Rose”. Porém, isso impediu que “Los Angeles – Cidade Proibida”, um filme muito mais adulto e forte, tivesse a chance de entrar para o hall dos vencedores do Careca. O “new noir” de Curtis Hanson é mais adulto, tem uma história mais complexa e talvez isso tenha afastado os heterogêneos votantes do Oscar.



A INVASÃO WEINSTEIN – PARTE II

Poucos anos no Oscar foram tão medíocres como este. Continuando sua intenção de cominar o mundo, os Weinstein emplacaram “Shakespeare Apaixonado” na lista dos melhores do ano e não satisfeitos, ainda fizeram o filme vencedor em nada menos do que 7 prêmios, incluindo alguns verdadeiramente absurdos como o de roteiro original (pois é) no lugar do profético “Show de Truman”, que até hoje é estudado em universidades como exemplo de über reality show e como a massificação da mídia pode influenciar diretamente toda uma população. A Academia preferiu votar na historinha água com açúcar e bobinha dirigida pelo medíocre John Madden (onde estará esse “brilhante” cineasta hoje?).

Outros absurdos foram os prêmios de melhor atriz para Gwyneth Paltrow, profundamente limitada, levando de gente como Fernanda Montenegro, Cate Blanchett (que deveria ter sido a vencedora), Meryl Streep e Emily Watson (outra possível vencedora). Das cinco indicadas, certamente Paltrow era a pior e apenas o poder do lobby explica sua vitória, assim como explica a vitória de Mrs. Judi Dench na categoria de atriz coadjuvante. Longe de mim desmerecer o trabalho dessa brilhante atriz, mas premiar alguém por 5 minutos de tela? Principalmente quando você tem Kathy Bates incrível em “Segredos do Poder” (vivendo a assessora de um político envolvido em um escândalo sexual) ou mesmo Lynn Redgrave no ótimo “Deuses e Monstros”. E nem vamos nos estender muito para explicar o porquê “O Resgate do Soldado Ryan”, “Elizabeth”, “A Vida é Bela” e principalmente “Além da Linha Vermelha” são filmes (com características e qualidades bem diferentes entre eles) bem superiores a “Shakespeare Apaixonado”. Basta dizer que Spielberg apresentou uma forma nova de filmar a guerra – que foi copiada a exaustão depois -, que a interpretação de Cate Blanchett e a qualidade de seu elenco de coadjuvantes fazem de “Elizabeth” uma das melhores biografias históricas de seu tempo, que Roberto Benigni conseguiu fazer rir de uma tragédia, que o gênio de Terrence Malick fez poesia da guerra. Já John Madden



APOSTAS CERTAS NO LUGAR DE NOVIDADES

Não podemos classificar os citados aqui na categoria de “bobagens”, mas eles entram em outra, às vezes mais dolorosa: a de não reconhecer na hora certa o talento de alguém. O Oscar é o mestre nesse tipo de coisa: ignora o ator agora e anos depois o resgata e premia como “consolação” por trabalhos mais interessantes realizados no passado.

Em 2000 foi o caso de Haley Joel Osment, impagável como o garotinho que via fantasmas em “Sexto Sentido”, preterido pela atuação segura e muito boa, é verdade, de Michael Caine em “Regras da Vida”, mas nada que pudesse realmente suplantar o impacto que o garoto Osment teve naquele ano no cinema.

O mesmo vale para a premiação de roteiro original. Quatro fortes indicados e que num mundo ideal – talvez – poderiam ter dividido o prêmio. Afinal como apontar superioridade em obras tão boas e tão diferentes como “Beleza Americana” (que venceu), “O Sexto Sentido”, “Magnólia” e “Quero ser John Malkovich”?



MAXIMUS CIRCUS OSCARIUS

Gladiador”, filme divertido, trilha sonora de alta qualidade, efeitos visuais incríveis, mas…melhor filme do ano? Sério? No lugar do épico chinês – com dinheiro norte-americano – “Tigre e o Dragão”? Ou da dura realidade dos muitos mundos ligados as drogas de “Traffic”?

Para completar a festa romana, Russel Crowe no lugar de Javier Bardem por “Antes do Anoitecer”? Ou mesmo Ed Harris em “Pollock”? Sério mesmo Academia? Precisava dar o “prêmio de consolação” para Crowe, depois de sua derrota em “O Informante”, justamente por esse filme, em que ele atua 80% fazendo cara de mal e 20% cara de dor?

Novamente é a visão simplista da Academia, que preferiu o simplismo da jornada do herói no lugar dos trabalhos mais adultos e importantes. Raramente esse julgamento é correto (“O Senhor dos Anéis” talvez seja uma das poucas exceções), principalmente quando o assunto é atual e palpitante.

Aqui, a Academia perdeu a chance de dizer que estava percebendo a complexidade de um mundo em que os governantes insistiam (insistem até hoje, na verdade) em tornar óbvio e de fácil resolução.



A FRIA MATEMÁTICA

2002 foi um ano com muitas semelhanças a 2012 (curiosamente uma década depois). Como em 2012, não tínhamos nenhum grande favorito e a Academia preferiu agir com “prudência” e premiar o filme sério, mas nem tanto, dirigido pelo garoto da casa Ron Howard.
Talvez apostando em premiar a franquia ao fim da jornada, o primeiro capítulo da turma dos hobbits foi aqui ignorado, assim como o dramático “Entre Quatro Paredes”, uma história mais adulta e forte do que “Mente Brilhante”.

Porém, se a vitória de melhor filme foi por falta de opção, a de direção e roteiro adaptado foram absurdas. Quando você tem ao seu lado um sujeito que criou um mundo (Peter Jackson), um maluco conhecido por sua originalidade e discurso que preza sempre por não ser óbvio (David Lynch), outro que mesmo quando faz um medíocre filme de guerra, apresenta predicados suficientes para se destacar (Ridley Scott) e um dos últimos mestres do cinema independente da Nova Hollywood, aqui brincando – aparentemente – de Agatha Christie (Robert Altman) é um sacrilégio premiar o quinto da lista. Pois é, Ron Howard, um sujeito competente, mas que nunca assinou seus filmes e que veio a se destacar apenas anos mais tarde com “Frost/Nixon” (seu melhor trabalho sem sombra de dúvida), foi o vencedor; assim como o roteiro adaptado de “Uma Mente Brilhante”, que venceu o bizarro e interessantíssimo roteiro de “Ghost World”, o dramático “Entre Quatro Paredes”, a primeira parte de “O Senhor dos Anéis” e a inovação vinda do mundo da animação, “Shrek”. Novamente, a Academia preferiu optar pelo lugar-comum, em vez de ousar um pouquinho.

Ainda no campo dos roteiros, assim como em 2000, menos pela qualidade do vencedor e mais pela falta de timing da Academia, “Assassinato em Gosford Park” levou o prêmio de melhor roteiro no ano em que a deliciosa comédia surreal francesa “Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, o inovador “Amnésia” e hoje adorado “Excêntricos Tenenbauns” foram indicados. Mais um lugar-comum, que optou pelo texto seguro – muito inglês – em lugar dos patrícios ianques e do pessoal da terra da baguete.



A INVASÃO WEINSTEIN – PARTE III (E UM CHINÊS MUITO BRAVO)

Embora tenha conseguido 6 carecas, acho que “Chicago” foi o maior triunfo dos Weinstein. Explico: “Chicago” é um musical, gênero odiado pela Academia desde meados dos anos 60 e conseguir a indicação e vitória sobre filmes mais fortes como “O Pianista” (que fala de Holocausto), o drama forte (e que deveria ter levado) “As Horas” e a história da cidade mais famosa do mundo (embora esse seja realmente mais fraquinho, mas mesmo assim, tem lobby) com “Gangues de Nova York”, é um caso de se aplaudir (caso você seja marqueteiro, claro).
Outra bobagem, e aí os Weinstein nada tem a ver, foi a derrota de “Herói”, o brilhante épico de wu-xia dirigido por Yimou Zhang, para o drama óbvio “Lugar Nenhum na África” na categoria de filme em língua estrangeira. Novamente é o caso de colocar na balança e concluir qual dos dois filmes resistiu ao tempo e é – obviamente – melhor. A beleza de “Herói” resiste ao tempo e as análises e até hoje ainda é um dos mais lindos filmes realizados na história do cinema.



OS COWBOYS QUE FORAM ROUBADOS

Crash” é uma bomba daquelas pretensiosas e fedorentas, aquelas que a Academia adora, aquelas que fazem os votantes do Oscar se sentirem “relevantes”. É um reforço de estereótipos travestido de saga “realista”, sobre “gente real”. E além do absurdo prêmio de roteiro original, vencendo 4 candidatos melhores, entre eles Woody Allen e seu “Match Point”, o ótimo “Boa Noite, Boa Sorte”, o que realmente tem um discurso político inteligente e importante “Syriana” e o drama indie “Lula e a Baleia”, venceu o prêmio de melhor filme e ninguém me tira da cabeça que venceu por puro preconceito.

Seu grande rival era “O Segredo de Brokeback Mountain”, que confesso, tive dificuldades em gostar na primeira vez que vi. Porém, revendo o filme depois, notei os magníficos atores, todos talentosos, que fizeram carreira – Anne Hathaway, Michelle Williams, Jake Gyllenhall e Heath Ledger – e o roteiro delicado que em momento algum levanta bandeira alguma, conseguindo emocionar apenas por ser uma ótima e trágica história de amor. E mesmo que a Academia mantivesse o seu ranço ao filme de Ang Lee (que levou o careca de direção) ainda tinha na disputa três outros filmes muito bons, como o já citado “Boa Noite, Boa Sorte”, o ótimo “Capote” e o subvalorizado “Munique”. A opção equivocada e muito infeliz queimou o filme do Oscar, em um ano de bons filmes e interpretações fortes.



O CASO DO REMAKE QUE GANHOU DO ORIGINAL

Os Infiltrados” é um filme bem legal e ponto. Não é o melhor Scorsese, nem mesmo na década (esse é o caso de “O Aviador”), mas foi a chance que a Academia teve de premiar – finalmente – o diretor. Se na categoria de melhor filme, existem poucas dúvidas (em um ano em que vários filmes melhores ficaram de fora da lista), na categoria de roteiro adaptado isso é diferente. Lembremos a lista: “Borat”, “Pecados Íntimos”, “Notas sobre um Escândalo” e “Filhos da Esperança”. Seja a comédia pirada e originalíssima de Sacha Baron Cohen, passando pelos pecados intensos e viscerais, pelos escândalos de professoras britânicas ou pelo apocalipse distópico e realista de Alfonso Cuarón, todos são mais interessantes do que o remake de “Conflitos Internos” (esse sim, um grande filme). Novamente, a Academia, no ano em que se Scorsese tivesse dirigido um curta levaria também, aproveitou o embalo e deu um careca nada merecido aos roteiristas de um remake.



O LUTADOR E O ROBÔZINHO QUE NÃO ERAM MILIONÁRIOS

Quem quer ser um Milionário” é um dos piores filmes da década e um dos piores vencedores da história do Oscar. A história bobinha e escapista no pior da concepção da palavra foi o grande vencedor do Oscar étnico de 2008. Além de “roubar” o prêmio de melhor filme, ainda vimos o filme levar mais 7 carecas pra casa.

A lista dos indicados a melhor filme esqueceu de “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (e dizem as más línguas que foi esse esquecimento que fez a Academia aumentar o número de indicados para 10 na categoria) mas mesmo assim ainda contava com o ótimo “Frost/Nixon” e o panfletário, mas importante, “Milk” como filmes muito melhores que a fábula indiana de butique de Danny Boyle.

O mesmo pode ser dito sobre a vistoria da categoria de roteiro adaptado, vencendo “Frost/Nixon” e o melhor na categoria, “Dúvida”.
E para não falarem que apenas os indianos foram favorecidos pela Academia, “Milk” levou o Oscar de roteiro original em lugar do poético e muito mais interessante “Wall-E”, até hoje o melhor trabalho da Pixar.
Outro que saiu da festa sem estatueta foi “O Lutador”, drama profundo e visceral de Darren Aronofsky que apontou o retorno de Mickey Rourke, em um papel de uma vida, e que foi preterido em lugar de Sean Penn, outro ator consagrado, que percebeu que o momento era de Rourke e que a vitória deveria ter sido dele. E se falamos que Marisa Tomei levou um Oscar muito precoce por “Meu Primo Vinny”, desde então ela vem provando ser uma atriz bastante talentosa. Indicada anteriormente por “Entre Quatro Paredes”, novamente se viu indicada aqui por seu papel intenso em “O Lutador”, mas, que foi preterida para a excentricidade e o exagero de Penelope Cruz em “Vicky Cristina Barcelona”.



SANDRA & PIXAR, AMAMOS VOCÊS

Sandra Bullock ganhou um Oscar meus amigos. Pois é, quem diria que a “Miss Simpatia” algum dia na vida seria uma “atriz séria”. Concorrendo com uma Meryl Streep em um papel mediano, uma Helen Mirren em um papel pequeno demais para seu talento e duas jovens e talentosas atrizes, foi a hora certa para a antiga namoradinha da América levar seu Careca. No mundo perfeito, e justo, a intensa performance da estreante Gabourey Sidibe teria levado o prêmio, e mesmo Carey Mulligan (embora eu não goste do filme) era outra postulante ao prêmio. Porém, a interpretação de Sandra cheia de over acting venceu, um dia depois de ter levado o “Framboesa de Ouro”. Isso só prova que a atriz é irregular e seu careca (Mãe Dinah feelings) deve ser o único na carreira.

O outro “problema” em 2010, foi a comprovação – que foi encerrada esse ano – de que basta a Pixar lançar um filme, que o Oscar de animação estará garantido. “Up – Altas Aventuras”, é um filme gostoso de ver, que tem os primeiros minutos maravilhosos, mas que tem um ritmo muito inconstante e que em comparação com os demais indicados ao prêmio de animação sai perdendo. Concorria com o interessantíssimo “Coraline”, o lindíssimo “Segredo de Kells” e o adulto e inovador “Fantástico Senhor Raposo”. Todos muito mais ousados do que a história do velho ranzinza e do gordinho japonês.



O REI QUE BATEU NOS NERDS

A vitória da mediocridade: “O Discurso do Rei” não é um filme ruim, mas é limitado, simplista, uma enorme coleção de obviedades e dirigido por controle remoto. E mesmo assim, ganhou 4 dos cinco prêmios mais importantes do Oscar. Fora a atuação imponente de Colin Firth (um prêmio justo), nada me convence que o roteiro de “O Discurso do Rei” seja melhor que os de “O Vencedor” e de “A Origem”, e nem vou entrar na questão da direção, já que, se em 1998 a Academia teve pudor de dar o prêmio de direção ao patético John Madden por “Shakespeare Apaixonado”, em 2011 eles venceram esse “problema”, e consagraram o pavoroso Tom Hooper como melhor diretor em lugar dos infinitamente melhores Darren Aronofsky, Joel e Ethan Coen, David O. Russell e David Fincher. Já a premiação de melhor filme é ainda mais engraçada: dos filmes indicados (inacreditáveis 10) pelo menos 5 são melhores do que o do Gaguinho, o que reforça toda a ideia de que a Academia prefere sempre o lugar-comum a qualquer coisa que fuja do modelo Syd Field de sucesso.


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