Frank Abgnale Jr. e suas facetas no teatro e cinema

Quando um filme não-musical é traduzido para os palcos da Broadway sua adaptação carrega um aspecto dos mais desafiadores, mas em compensação, pode se tornar um dos espetáculos mais antecipados e mais divertidos de se ver. Esse é o caso de “Prenda-me Se For Capaz”, longa da DreamWorks de 2002 dirigido por Steven Spielberg e protagonizado por Tom Hanks e Leonardo DiCaprio, que conta a vida de Frank Abgnale Jr entre seus 16 e 21 anos de idade, período em que fugiu de casa e se tornou um dos maiores procurados do FBI. Com um cheque nas mãos, muita inteligência e muito charme, Frank conseguiu falsificar milhões de dólares em cheques e se passar por advogado, médico e piloto da famosa companhia aérea Pan Am. Uma premissa que embora super hollywoodiana se baseia em uma história real, contada pelo próprio Frank em sua biografia publicada nos anos 80.

Esse adorável sedutor teve seus anos de fugitivo seguidos pelo agente Carl Hanratty, que não sossegou até colocar suas mãos nele e tornou a história ainda mais interessante por aparecer como uma figura paterna para Frank, que teve como um dos motivos de sua fuga o divórcio dos pais. Spoiler alert: após ser capturado, Frank passou para o outro lado da lei, ajudando Carl – seu futuro compadre- no departamento de fraudes do FBI, detalhe que ajudou ainda mais a tornar Frank Abgnale Jr. em um dos mais queridos fora da lei dos Estados Unidos, se juntando ao casal Bonnie e Clyde e o gangster John Dillinger, que também já tiveram suas homenagens nos cinemas.

Depois de mais de seis anos de preparação e uma temporada de experiência – os chamados trials, de costume para shows que pretendem ingressar na Broadway – em Seattle em 2009, “Catch Me If You Can” estreou oficialmente na Broadway em abril de 2011. Na peça, assim como no filme, a trama é contada em flashback, mas se tratando de um musical como não esperar menos do que um flashback em forma de show de variedades? Assim que Frank é capturado ele resolve contar sua história, mas do seu jeito, com muito charme, glamour e mulheres. A abordagem, claro, permite grandes números de dança com o melhor dos cenários e coreografias, e assim o show começa, com uma das principais músicas do espetáculo: “Live In Living Colors”.

Aaron Tveit dá vida ao papel que foi de DiCaprio e apesar de Frank ser considerado seu primeiro protagonista, o ator já esteve em grandes produções como “Hairspray”, “Wicked” e “Rent” e se destacou em seu primeiro papel como parte de um elenco original no consagrado “Next To Normal” (prestes a estrear sua versão brasileira no Rio de Janeiro). O rapaz também gosta de se aventurar na televisão e no cinema, participou de seriados como “Gossip Girl” e filmes independentes como “Howl”, com James Franco, e logo volta às telonas com o esperado “Os Miseráveis”.

Seu parceiro de cena Norbert Leo Butz já é um ícone no cenário musical. Com anos de experiência à frente de Tveit, Butz é quem deu vida a Fieyro em “Wicked”, peça spin-off de “O Mágico de Oz” em que ele já demonstrava todo seu talento e um vocal jazz-ish delicioso de se ouvir. Sua performance como Carl Hanratty foi coroada com o prêmio Tony de melhor ator em musical.

Para completar o trio masculino desse musical tão cheio de hormônios está Tom Wopat, intérprete do pai de Frank (feito pelo maravilhoso Christopher Walken no filme), que pode não ter toda fama e charme de Tveit e Butz, mas tem um currículo extenso e dá uma sensibilidade tocante ao papel, além de fazer um dueto com cada colega de cena em duas das músicas de mais destaque da peça: “Butter Outta Cream” e “Be A Man”, que abordam as relações centrais tanto da peça quanto do filme, a de Frank com seu pai e com Carl.

“Butter Outta Cream”, aliás, é um exemplo de falas e diálogos intocavelmente retirados do filme e colocados no texto da peça. A história do rato que ao invés de se afogar nadou tanto no creme que transformou ele em manteiga que é contada por Frank Sr. para o filho e posteriormente repetida pelo jovem durante o jantar com os pais de sua amada Brenda, ganha na peça seu devido reconhecimento sendo transformada nesta canção.

Brenda é a enfermeira de um hospital que não demora a encantar Frank e faz com que ele decida subitamente trocar de “profissão” e se tornar – além de advogado – um médico. Provindo de um sentimento de solidão e apaixonado por Brenda, Frank quer largar tudo e se enquadrar na lei, mas não consegue a ficha limpa desejada e quando encurralado precisa fugir novamente. Na versão teatral a visão de Brenda sobre Frank é ainda mais explorada e pela canção “Fly, Fly Away” a personagem demonstra o ter como um garoto inocente que não sabe medir as consequências de seus atos, em uma cena de destaque para a atriz Kerry Butler (“Beauty and the Beast”, “Les Mis”, “Hairspray” e “Rock of Ages”).

Outra parte constante no filme é o fato de que Frank e Carl costumavam se falar por telefone todo ano durante o Natal, passagem representada pela música “Christmas Is My Favorite Time Of Year”. Esse tipo de relação demonstra a fidelidade do texto ao filme, transformando roteiro em canções e fazendo o que todo musical deveria, construir músicas que além de serem gostosas de ouvir ajudam na construção da narrativa e na definição e desenvolvimento dos personagens.

O trabalho do elenco com o texto de Terrence McNally e as músicas de Marc Shaiman e Scott Wittman em uma história já adorada, principalmente pelo público americano, e o fator espetáculo em todo seu potencial resultaram em entretenimento de qualidade e abordam uma versão que lembra assim como se difere da cinematográfica com grande potencial para agradar tanto fãs de musical quanto os fãs do filme.


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Artigo redigido por Maiara Tissi, ex-colunista do Cine Splendor.


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