Tudo começou quando o gênio do mundo musical Stephen Sondheim (compositor de peças como “Follies”, “West Side Story” e “Gypsy”) assistiu uma versão de “Sweeney Todd” em Londres e logo de cara imaginou aquela história como um musical. Em sua pesquisa descobriu que a peça fora escrita pela primeira vez no século XIX e que dentre versões literárias, teatrais e cinematográficas, uma delas continha além do amargurado barbeiro assassino e sua cúmplice Mrs. Lovett, que usava da carne de suas vítimas para fazer tortas, um motivador para o comportamento do protagonista: a vingança pela perda de sua esposa e filha. Nessa história mais desenvolvida, o poderoso e maquiavélico juiz Turpin se interessa pela esposa de Todd, o prende e exila por 15 anos, para que, assim, possa tomar-lhe a esposa e a filha. Desolada, a esposa, Lucy, se envenena e a filha, Johanna, é adotada por Turpin. Quando retorna a Londres juntamente com seu companheiro marinheiro Anthony, Todd anseia por reencontrar com sua família, mas descobre o que houve através de Mrs. Lovett, que o reconhece e não esconde sua antiga paixão. Os dois passam a trabalhar juntos enquanto Anthony e Johanna se apaixonam e planejam fugir juntos.
Com essa trama foi que Sondheim criou suas letras, transformando a história em uma opereta que estreou na Broadway em 1979 com texto de Hugh Wheeler e Angela Lansbury e Len Cariou nos papeis principais. A produção foi um tremendo sucesso, ganhando nada menos que nove Drama Desk Awards e oito Tony Awards. Desde então diversas produções especiais incluindo óperas e concertos foram feitas, com destaque para a apresentação com a orquestra filarmônica de Nova York realizada em maio de 2000 no Lincoln Center com George Hearn, Patti LuPone e Neil Patrick Harris como o jovem Toby (ajudante de Mrs. Lovett na loja de tortas) no elenco. Para deleite dos fãs, o concerto foi gravado em DVD e pode ser encontrado no Brasil.
Algumas adaptações para o cinema também foram feitas durante os anos, mas a obra se tornou conhecida mundialmente quando, em 2007, Tim Burton (“Os Fantasmas Se Divertem”, “Ed Wood” e “A Noiva Cadáver”) decidiu encarar o desafio de fazer seu primeiro filme musical e levou para as telonas sua versão de “Sweeney Todd”. É difícil imaginar um diretor que pudesse captar o aspecto sombrio e o teor de suspense da forma como Burton fez, mantendo as vertentes cômicas dos personagens e relacionando o filme com a peça tanto quanto dando suas próprias características como diretor. Para os papeis principais foi escalada sua dupla inseparável, Helena Bonham Carter e Johnny Depp, ambos surpreendendo quando foi preciso trabalhar e exibir seus dotes como cantores. O resto do elenco mescla novos nomes e velhos conhecidos, como Alan Rickman (também soltando o vozerão) e Timothy Spall nos papeis dos medonhos Juíz Turpin e seu ajudante Beadle. Enquanto Jamie Campbell, Jayne Wisener, Ed Sanders (destaque para a canção “Not When I’m Around”) e Laura Michelle Kelly são apresentados pelos papeis de Anthony, Johanna, Toby e Lucy, quarteto que com suas vozes incríveis eleva o nível do longa trazendo vocais habilidosos às interpretações não menos talentosas.
Já pela cena de introdução Burton apresenta o universo em que o público está prestes a embarcar. Uma Londres degenerada do século XIX que lembra “Oliver Twist” com um clima de suspense a mais, formando o cenário perfeito para o mais sombrio dos musicais. Para acompanhar esse visual, figurinos esfarrapados, fotografia em tons de cinza com toques avermelhados e o grande uso de Chroma Key dão ao longa um visual de história em quadrinhos. Visual esse que tem uma quebra interessante em meados do filme, quando Mrs. Lovett conta a Sweeney sobre o sonho de viajar com ele e Toby para um lugar campestre ou uma praia, tornando, por essa cena de felicidade e esperança por parte dela, a fotografia, figurinos e cenários em tons coloridos. Na peça a cena é feita apenas de diálogo e Burton aproveitou muito bem as vantagens e possibilidades dadas por recursos cinematográficos para explorá-la melhor, assim como os flashbacks presentes na trama e a simultaneidade de coisas acontecendo ao mesmo tempo. No teatro esses momentos eram projetados por diferentes ambientes em um palco só, fator presente principalmente quando são apresentadas histórias de suspense, como em “O Médico e o Monstro”, musical que por vezes é comparado a “Sweeney Todd”.
No longa é mostrada mais uma vez a química incontestável entre Johnny Depp, Helena Bonham Carter e Tim Burton, que conseguem fazer do cômico ao assustador nesses personagens obcecados cada um por uma mentira diferente, em uma adaptação muito bem feita de um clássico da Broadway, com um visual totalmente pertinente ao enredo e um elenco talentoso que faz jus às letras de Sondheim. Atualmente, a peça está em cartaz no West End londrino com Michael Ball e Imelda Staunton, quem tiver oportunidade e coragem, não deve perder o derramamento de sangue ao vivo que envolve essa opereta macabra.
Artigo redigido por Maiara Tissi, ex-colunista do Cine Splendor.








Muito obrigada pelo seu texto. Procurei por todo lugar um texto tão detalhado e completo como este. Demorei mas encontrei! Muito obrigada, amo esse musical.