Chegadas e Partidas | Junho de 2012

A palavra renovação, geralmente, é associada a substituição ou troca. Esta é a regra geral, mas não vale para a arte. Não há subtração na renovação artística. Elvis não é o único a não ter morrido: a arte imortaliza e sempre gera novos imortais. Com o cinema, claro, não haveria como ser diferente.

É verdade que Chaplin, Bogart ou Brando são insubstituíveis. Sem dúvidas, não nascerão mais Monroes ou Hepburns (e que ninguém reclame, pois já tivemos duas – o destino gosta desses milagres). Ninguém mais dirigirá como Hitchcock, Kurosawa ou Kubrick. Todos eles, porém, ainda atuam ou dirigem todos os dias em telas do mundo inteiro. Algo que sempre ocorrerá, e se aplica de De Niro, Pacino, Streep e Spielberg; a Gosling, Fassbender, Lawrence e Aronofsky, entre tantos e tantos outros (citar nomes sempre é uma tarefa inglória e injusta).

Por isso, esta coluna presta um pequeno tributo a estes realizadores. Mensalmente, será lembrada a carreira dos falecidos de cada mês, citando o seu legado. Ao mesmo tempo, analisaremos o papel de estreantes ou de artistas que, de alguma forma, conquistaram espaço e fizeram-se notar de maneira particularmente marcante no universo cinematográfico, no mesmo período.

É fato que não há mortes no cinema, e Carlos Reichenbach parecia saber disso ao partir justamente no 14 de Junho em que nasceu. Era como se dissesse ao mundo que morrer, para ele, era nascer de novo, agora para a eternidade – eternidade artística, não menos religiosa que a espiritual. E Reichenbach sabia o que era arte.

Sabia como espectador, apaixonado cinéfilo que era, apresentando desde 2004 filmes menos conhecidos na Sessão do Comodoro, em São Paulo. Sabia também como criador audacioso, nome importante de movimentos do cinema brasileiro desde o Cinema Marginal dos anos 70 – época em que desafiava a ditadura militar – até a retomada pós-Collor. Independente, premiado e responsável por obras como “Extremos do Prazer” (1984), “Anjos do Arrabalde” (1987), “Alma Corsária” (1993), “Garotas do ABC” (2003), “Falsa Loura” (2007) – seu último longa – e tantos outros, Carlão, como era chamado, foi conhecido também pela generosidade com que lidava com amigos e parceiros de trabalho. Nunca se aposentou e preparava um novo trabalho, “Um Anjo Desarticulado” (2013). A parada cardíaca que o vitimou, portanto, não o impediu de realizar um desejo declarado em entrevista recente: morrer trabalhando.

Nora Ephron, respirava arte desde o berço – era filha de pai e mãe dramaturgos. Não é surpresa, então, que Nora tenha sido tão versátil no mundo cinematográfico: atuou, roteirizou e dirigiu. Seus trabalhos mais marcantes provavelmente foram os roteiros de “Harry & Sally – Feitos um Para o Outro” (1989) e “Sintonia de Amor” (1993) – obra que também dirigiu-, longas conduzidos com um estilo que se tornou referência para as comédias românticas feitas nas últimas décadas. O último trabalho de Nora foi o divertido “Julie & Julia” (2009), em que dirigiu Meryl Streep. Morreu em decorrência da leucemia.

Assim como Nora, Giuseppe Bertolucci era de uma família de artistas – filho de um poeta, Attilio Bertolluci, e irmão mais novo do lendário diretor Bernardo Bertolucci. Giuseppe colaborou com o irmão em diversos projetos, com destaque para o roteiro de “1900″ (1976). Por sua vez, dirigiu diversos projetos, com destaque para os longas ficcionais “Berlinguer ti Voglio Bene” (1977) e “I Cammelli” (1988), além do documentário “Panni Sporchi” (1980), nascido a partir de investigações do Partido Comunista Italiano, com o qual simpatizava. Sua morte foi decorrente de problemas respiratórios.

Conhecido pelos diversos papéis como vilão, muito graças às cicatrizes faciais – decorrentes de um incêndio ocasionado por alucinações após o uso de LSD -, Richard Lynch também eternizou-se após uma parada cardíaca em Junho. O astro estreou no cinema em “O Espantalho” (1973), ao lado de Al Pacino, e tem seu nome marcado por uma extensa lista de personagens em diversos longas, especialmente nos de ficção científica e terror, como “Halloween – O Ínicio” (2007).

Das partidas às chegadas, era grande a ansiedade pela estreia nos cinemas de Michael Sucsy. O diretor ganhou diversos prêmios em 2009 pelo bem sucedido “Grey Gardens” (2009), filme feito para a televisão, produzido pela HBO. Seu primeiro longa voltado para as telas grandes, “Para Sempre” (2012), estreou neste mês no Brasil.
O resultado, contudo, decepcionou. “Para Sempre” foi considerado pela crítica melodramático e banal, muito graças à condução de Sucsy. O fracasso esfriou as expectativas para o próximo projeto do diretor, “Rosaline”, uma versão de Romeu e Julieta contada sob o ponto de vista de uma antiga pretendente de Romeu.

Enquanto isso, Gulliver McGrath foi uma quase-estreia infantil do mês. Após papeis pequenos em “The Loved Ones” (2009) e “A Invenção de Hugo Cabret” (2011), Gulliver é um dos protagonistas de “Sombras da Noite” (2012), último trabalho de Tim Burton. O garoto interpreta David, o caçula da família Collins, uma criança que “vê pessoas mortas” (mas, ao contrário do personagem Cole Sear de “O Sexto Sentido” (1999), não parece sentir muito medo de suas visões).
O jovem não está mal no papel, mas acaba boicotado pelo roteiro irregular que transforma quase todos os membros da família em mal desenvolvidos personagens secundários, utilizados apenas como gancho da trama principal – e com David Collins não é diferente. Gulliver, contudo, terá ainda este ano outra boa oportunidade de mostrar seu trabalho: está no elenco de “Lincoln” (2012), drama biográfico previsto para estrear ainda em 2012, dirigido por Steven Spielberg – diretor que já mostrou qualidade na direção de atores mirins diversas vezes, inclusive revelando Drew Barrymore.

Se o garoto ainda precisa mostrar a que veio, quem promete ter vida longa no cinema após sua primeira protagonista em Hollywood é a sueca Noomi Rapace. No irregular “Prometheus” (2012), a atriz interpreta a jovem cientista Elizabeth Shaw, papel disputado por estrelas do calibre de Natalie Portman e Anne Hattaway.

A corajosa, crédula e esperançosa cientista Shaw pouco tem a ver com a dura e igualmente corajosa Lisbeth Salander, de “Os Homens que Não Amavam as Mulheres” (em sua versão original, de 2009), personagem que alçou a atriz ao reconhecimento internacional. Também não se confunde com a sensual cigana Sim, de “Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras” (2011), seu primeiro papel no cinema norte-americano. Assim, em sua terceira personagem, Noomi mostra-se uma atriz definitivamente versátil e se firma como um nome a ser observado com atenção nos próximos anos.

Dessa forma, entre chegadas e partidas, fica evidente a força que carregam os nomes responsáveis pelo cinema. Não é à toa que muitos dizem tê-lo como religião: falar da Sétima Arte é falar de eternidade. Esta é uma das razões para o cinema ser tão mágico e trazer encanto para tantos cinéfilos mundo afora. Por isso, nada mais justo que reverenciar mensalmente os maiores símbolos desta magia, os representantes mais notáveis deste processo, as pessoas que estão partindo e imortalizando-se ou que, de alguma forma, estão chegando para renovar o ciclo. É o mínimo que se pode fazer como tributo à atemporalidade.





Artigo redigido por Bruno Tasca, ex-colunista do Cine Splendor.


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