Nesta edição de “Confissões de uma Mente Perigosa” nosso alvo é um profissional que atua como crítico de cinema desde 1994 e está prestes a lançar seu segundo curta-metragem em festivais – além de contar com uma coletânea de suas críticas a caminho. Pablo Villaça, em uma conversa conosco durante a semana em que ministrava uma das edições de seu curso de Linguagem e Crítica Cinematográficas em São Paulo, falou sobre muitas coisas mas, principalmente, a paixão pela sétima arte.
Questionado sobre seu envolvimento com cinema, ele comenta que o relacionamento tem por principal responsável sua avó, que, muito apaixonada por filmes, pelo menos uma vez por semana levava a ele e sua irmã para conferir uma nova obra, sendo “Os Trapalhões na Guerra dos Planetas”, filme de 1978, sua memória mais antiga na sala de cinema. “Era um dia especial, até o almoço era diferente. A gente ia pro cinema, via o filme, ficava na outra sessão se quisesse, ia tomar sorvete, comer misto quente… Então desde cedo passei a associar cinema com um dia gostoso, com experiências positivas”.
Sobre a transformação do hobby em profissão, afirma que foi obra do acaso, visto que largou a faculdade de medicina para poder continuar com a carreira relacionada ao cinema: “Quando tinha uns 13, 14 anos o videocassete chegou ao Brasil e a gente comprou o segundo modelo, imenso, com controle remoto com fio inclusive. E em Belo Horizonte tinha um negócio chamado ‘Videoclube do Brasil’. Era como uma vídeo locadora em que você pagava uma mensalidade, que hoje seria de uns 30 reais, e tinha um plano de dois filmes no qual você podia assistir e trocar os filmes no mesmo dia ou até ficar com eles por quanto tempo quisesse. Eram sempre dois filmes e eu trocava-os quase todo dia. Na época ainda não existiam campanhas contra pirataria então eles tinham todos os títulos imagináveis, filmes que até hoje não foram lançados no Brasil. ‘A Malvada‘, por exemplo, demorou a ser lançado no Brasil, mas eles tinham. E assim, eu tive a oportunidade de ver filmes que quem nasceu 5, 6 anos depois, com as campanhas de VHS selados e tudo mais, não teve. Eu comecei a assistir muitos filmes, de todas as épocas, gêneros; foi uma escola.
Na mesma época um tio meu me deu ‘Criando Kane‘, da Pauline Kael, que foi meu primeiro contato com texto de cinema, e eu pensei ‘Olha que engraçado, cinema não é só diversão, tem gente que escreve sobre isso’. Logo em seguida ganhei de presente um CD chamado ‘Cinemania‘ que tinha todas as críticas do Roger Ebert e peguei o hábito de, sempre que via um filme, ler a crítica dele. Foi aí que eu descobri a crítica cinematográfica e comecei a ficar interessado, passei a comprar livros sobre teoria de cinema – isso com 14, 15 anos – e ler sobre sua história, me interessar por cinema de uma forma mais aprofundada.
Daí eu entrei na faculdade de Medicina. Tinha assistido a ‘Tempo de Despertar‘ e isso reforçou meu desejo de ser médico, mas sabia que ainda queria fazer algo relacionado à escrita, então quando a internet chegou ao Brasil comecei a escrever sobre as estreias da semana, um parágrafo e a nota pro filme – isso em 94, quando iniciei minha carreira. Um pouco depois eu criei o Cinema em Cena, em 97, e quando estava no sétimo, oitavo período da faculdade percebi que tinha muito mais prazer escrevendo sobre cinema do que com a medicina. Eu estava na faculdade das oito da manhã às seis da tarde, e ficava na internet da meia noite até umas quatro da manhã escrevendo. Dormia duas, três horas e voltava para a faculdade. Isso me deixava arrebentado, então percebi que se ficasse com a medicina, teria que largar o cinema, não tinha como conciliar. Até hoje acho a Medicina a profissão mais linda que existe, mas quando você é médico precisa passar todo seu tempo trabalhando ou estudando, a medicina exige tudo de você, então eu pensei ‘consigo viver sem cinema? Não. Consigo viver sem a medicina? Consigo’”.
A coletânea das críticas de Pablo, já mencionada, contará com introduções de dois espetaculares profissionais da área. Uma ficará a cargo de Rubens Ewald Filho, que o crítico destaca ser a pessoa que conhece com mais sabedoria quando o assunto é cinema, além de dono de uma memória impressionante. “O Rubens popularizou a figura do crítico de cinema. Eu já o acompanhava na tv há um longo tempo e quando o conheci, em 1999, me apresentei e minhas mãos tremiam. Foi uma honra; ter me tornado seu amigo é uma espécie de conquista” diz, dando a deixa para perguntarmos sobre sua relação com o autor da outra introdução, aquele que lhe apresentou o que hoje é sua profissão e de quem é correspondente: o norte-americano Roger Ebert.
“Com o Roger foi algo diferente. Até agora eu e Rubens não tínhamos nenhuma parceria profissional, a amizade surgiu primeiro, mas com Roger não, antes de nos tornarmos amigos veio a relação profissional. Eu escrevi um texto em inglês sobre ‘Busca Frenética‘ e estava no twitter, na casa da minha irmã em Brasília, quando de repente apareceu um tweet do Roger Ebert indicando meu texto. Depois disso começamos a conversar e ele me convidou a escrever para o site dele, passei a ser seu colaborador. E ele, assim como Rubens, é uma figura extremamente generosa. Por exemplo, logo que publiquei o primeiro texto em seu site, ele me mandava diariamente quantos acessos tinham, comentários, coisas que não precisava. Esse ano ele me convidou para o Ebertfest pela segunda vez e me deu destaque no festival, nós nos tornamos bastante amigos, algo que para mim é inacreditável. Temos uma relação de dois anos agora e apesar da amizade, toda vez que chega uma mensagem dele no meu e-mail é algo surreal.”
Devido à admiração pelas duas personalidades perguntamos como fica a questão profissional quando algum dos dois tem uma opinião completamente diferente sobre algum filme, por exemplo, algo que Pablo declara ser natural, utilizando sua resposta para definir qual acha ser o ideal da crítica. “O Roger, por exemplo, é muito bonzinho, mas eu admiro alguém que consiga defender um ponto de vista contrário ao meu com boa argumentação. Eu posso até discordar, mas entendo o que ele quer dizer. É diferente de ver algo sem embasamento, e com o Roger nunca é assim. Isso é bacana. A crítica é uma arte, o papel dela é ensinar algo. Quando estou escrevendo sobre um filme não estou escrevendo só sobre ele, mas sobre cinema, e espero que quem leia meus textos entenda sobre o filme, mas também aprenda um pouco mais sobre cinema. Isso acontece quando você lê os textos dele, concorde ou não com sua opinião.”
Diante do fundador do primeiro portal sobre cinema no Brasil questionamos a chave do sucesso para acompanhar as mudanças, algo que determina o final de muitos sites mas não impediu o Cinema em Cena de crescer, manter o nível e continuar conquistando o público. Em primeiro lugar a diversidade é destacada. Villaça afirma que ter notícias, críticas e informações diferentes é essencial, visto que muitos não querem ler notícias mas gostam das críticas, enquanto outros buscam o oposto ou nenhuma das duas coisas. Em segundo lugar, explica que desde a primeira versão do site era importante manter o conceito de comunidade, com espaço para comentários e participação do leitor – “Ninguém tinha isso, mas nós sempre valorizamos o retorno do leitor.” -, algo que justifica a criação do fórum e presença ativa nas redes sociais.
Fora isso Pablo mostra compreender quando mudanças são necessárias: “Com o passar do tempo o site atrasou um pouco quanto à linha editorial porque minha preocupação passou a ser a crítica, então o Cinema em Cena parou no tempo. De 2007 a 2011 foi sua pior fase, estava estagnado, até que eu tomei a decisão fundamental: me demitir, não podia ser mais o editor. Precisei ser humilde para perceber que isso era o melhor. Fui o criador do portal mas não era a pessoa certa para levá-lo para frente. Assim contratei o Renato como editor, um cara foda, que escreve bem para caramba, é um profissional excepcional, a pessoa mais ética que conheço, um dos meus melhores amigos e que tem uma visão mais jovem que a minha, mais geral, consegue enxergar o site como um todo. Por exemplo, ele criou o podcast e estourou! Isso teve um papel importante porque todo mundo sempre associou o site comigo e isso não é bacana, muita gente não gosta de mim por diversos motivos, como minha posição quanto à política, religião e homossexualidade. Isso era negativo para o site, mas o podcast fez os leitores associarem o Cinema em Cena com a equipe: o Renato, a Larissa, o Tullio e o Heitor, cada um com sua coluna e participação.”
Ao falarmos justamente sobre suas opiniões e as constantes polêmicas que surgem nas redes sociais devido à exposição destas e o retorno em tempo real dos leitores, Pablo afirma que ainda lida muito mal com isso: “Eu fico puto. Antes das redes sociais sua relações eram só com amigos, gente que tinha algo em comum e que você queria na sua vida. Mas com as redes sociais você tem acesso a todas as pessoas e elas a você. Isso é assustador, pois no mundo tem muita gente medíocre, que não sabe argumentar e não compreende isso. Pode me chamar de arrogante, mas isso é terrível. A única coisa que ainda não sei fazer nas redes sociais é ignorar quem merece ser ignorado, aquela coisa de ‘Não alimente os Trolls’, sabe? Se o argumento da pessoa é bom, se o debate é interessante, tudo bem, acho fascinante alguém que tem opinião diferente da minha e consegue argumentar em um nível bacana. Acho do caralho! Agora, tem muita gente que é simplesmente estúpida – e quando a pessoa é estúpida, eu fico cruel. Não digo isso com orgulho, mas fico. Opinião só é tão válida quanto o argumento que a embasa. Mas ainda vou aprender a ignorar essas pessoas e me divertir com isso.”
Quanto ao gosto por cinema e desenvolvimento de senso crítico, Pablo afirma que só se aprende sobre cinema assistindo filmes. À medida que se adquire experiência, o gosto fica mais refinado e o espectador amadurece – “Você vai envelhecendo e vai aprendendo. Não é que quando fica velho está mais chato, mas sim mais exigente, pois já viu de tudo”. O problema, porém, é a falta de interesse do público atual, que está mais preguiçoso e tem menos vontade de procurar algo novo. “Quem me dera ter acesso a tudo que há hoje quando era mais jovem! Na minha época, para aprender sobre algo, tinha que ir procurar na enciclopédia! O pessoal usa muito mal a internet. Li um artigo que falava que textos com mais de 400 palavras não são lidos – e 400 palavras não são NADA! Isso acontece com vídeos também: se a duração é maior que 5 minutos o pessoal não vê, acha muito longo. Longo?! Isso é absurdo!”.
E o pior? Essa preguiça reflete nos amantes do cinema, mas engana-se aquele que afirma que o cinema de hoje é ruim ou mesmo o pior de todos os tempos. A diferença é que os filmes de antigamente que resistiram ao tempo são os bons. “O público de hoje é pior. Na década de 70 o pessoal ia pra cineclube ver John Cassavettes, procuravam filmes diferentes. Mesmo com a facilidade da internet, por exemplo, quando as pessoas podem baixar a filmografia de Truffaut completa, preferem baixar o último filme de Adam Sandler, Rob Schneider! O público ficou passivo, preguiçoso. Antigamente o cara podia consumir ‘Star Wars’, mas queria também assistir a ‘Apocalypse Now’. Hoje não, o cara que vê ‘Transformers‘ nunca vai ver ‘Árvore da Vida’ e ainda vai utilizar a justificativa do medíocre para isso: chamar de ‘pseudo-intelectual’ quem assiste. Você nunca vai ver alguém inteligente chamando outra pessoa de pseudo-intelectual. Essa é a pior forma de tentar diminuir o outro por você mesmo ser incapaz de aprender ou gostar de algo. Agora, você acha que no futuro ‘Crepúsculo’ ou mesmo ‘Transformers’ vão sobreviver? Claro que não. E as pessoas vão pegar os filmes de hoje que permanecerem e falar: Puta, que ano ótimo pro cinema!”
Mantendo a linha de raciocínio nas franquias e produções mencionadas, os blockbusters, discutimos sobre a necessidade de filmes serem realizados para gerar lucro, abandonando-se o cinema como arte: “Cinema é a arte mais cara que existe. Hoje está ficando mais barata devido ao digital e as facilidades, mas, de modo geral, para fazer algo mais elaborado, é muito caro. Eu entendo a necessidade de fazer algo comercial, que fature, algo popular. O primeiro beijo no cinema, por exemplo, tinha essa intenção, de chamar o público, provocar polêmica. Isso em 1896, ou seja: nasceu com o cinema.”
Mas convidar o público às salas de cinema tem seu limite, que quando ultrapassado, é conhecido também como dublagem. “Qualquer pessoa que goste de cinema defende o áudio original. A pessoa que assiste ao filme dublado prefere o quê? Ver algo mutilado, com a mixagem toda errada, a voz do ator original que trabalhou um ano em cada inflexão, cada característica, cada tremida, substituída pela de outro que vai fazer tudo em 4 horas?! O problema é: o cinema não é reconhecido como arte. Nunca foi e continua não sendo respeitado. Afinal, ninguém pensaria em dublar uma música, pegar Paul McCartney e colocar com a voz do Michel Teló, ou então colocar uma orelha no Van Gogh, entende? Ninguém pensaria em pegar Shakespeare, por exemplo, e falar ‘Ó, Romeu e Julieta merecem um final feliz’. Mas com o cinema não se tem esse medo de mutilar, enxerga-se ele como entretenimento, ignorando que antes de ser entretenimento é arte, uma arte que entretém! E se é arte tem a visão do artista! Pode ser o pior artista do mundo, mas a visão dele tem que ser respeitada, ninguém tem o direito de mudar aquilo! Você tem o direito de falar mal, reinterpretar o trabalho, mas não mudar. Eu não posso pegar um elemento que o cara passou meses fazendo e alterar tudo porque meu público tem preguiça de ler legendas!”
Prosseguindo com o assunto, foi comentada a desculpa e comparação com os filmes na Europa, majoritariamente dublados, algo que desencadeia a discussão de um outro ponto ignorado por muitos que defendem a dublagem com esse argumento: o motivo que leva os europeus a dublarem seus filmes.
“Isso tem todo um contexto político! Existe uma xenofobia lá que é antiga, de guerra. Eles não dublam para facilitar, mas porque tem preconceito com o que vem de fora. É uma motivação feia, pior que aqui. Querem usar isso como exemplo? Ok, que mentalidade colonial é essa? Não é porque fazem isso lá que é melhor! Dublagem é algo que não devia existir, você não deve alterar o original. Eu não sei hebraico, chinês, francês, mas se eu assistir a um filme destes, na cultura deles está envolvida a cadência com que falam, e eu quero isso. Isso faz parte do filme, faz parte dos personagens! Quero entender por que eles falam assim! É do caralho ter contato com outras culturas, é bacana, mas quando você se limita a ver na sua língua, você fecha seu mundo. É uma questão educacional e cultural!”
Quanto ao cinema atual e a “nova geração”, Pablo menciona alguns nomes ressaltando por que são promissores, como Zack Snyder – “Ele tem problemas em construir personagens realistas mas tem um olhar plástico maravilhoso. Se aprender a humanizar os filmes, ninguém segura”; o brasileiro Afonso Poyart – “Acho ‘Dois Coelhos’ poluído, mas isso mostra que ele viu muitos filmes e absorveu tudo, e isso é bom”; Julia Murat e sua estreia na direção de “Histórias que só existem quando lembradas” – “É delicado, de uma força impressionante!”; além de mencionar Nicholas Refn, Florian Henckel von Donnersmarck, Cristian Mungiu e Alejandro Amenábar. “É dificil pensar, quando o cara fez um filme só e você gostou, se ele vai ser promissor ou não. Mas adoro descobrir gente, alguém novo para eu acompanhar!”
Citamos Marlon Brando nos momentos finais de nossa entrevista, e a reação do fã patológico de “O Poderoso Chefão” foi explicar que, para ele, existe o cinema antes e depois do ator que levou a naturalidade para a sétima arte. “Admiro ele pelo que ele representa, pelo que fez. Ele deixa clara a diferença entre o bom e excelente ator. O bom ator vai mostrar a emoção do personagem, o excelente ator vai além disso, descobre coisas que tornam aquele personagem real.”
Agora, a resposta mais apaixonada foi dada, de fato, ao definir oque significava o cinema para ele: “Amor. Eu tenho um amor profundo por cinema e é gostoso aprender sobre cinema. É sensacional gostar de algo e saber que você tem 100 anos daquilo para descobrir. Basta ter vontade. Toda vez que eu estou na sala de cinema, estou apaixonado – e toda vez que entro na sala de cinema me sinto realizado, penso que não é todo mundo que tem a sorte que eu tenho, de trabalhar com o que gosta, viver do que gosta. Primeiramente a escrita, pois vai doer muito se algum dia eu tiver que escolher entre a literatura e o cinema, mas se eu parar de escrever eu morro, é isso que me sustenta. Mas eu vivo das coisas que mais amo: cinema e escrita. É muita sorte.”
Para ler as críticas de Pablo, acesse: Críticas por Pablo Villaça.








Interessante e sincera entrevista, vou procurar assistir aos filmes citados. Concordo que a exposiçao a que estamos sujeitos hoje atraves da internet, atrae todo tipo de pessoa, desde os admiradores aos intimidadores. O computador aceita tudo e com a falsa noçao de anonimato as pessoas se expoe com seus piores pensamentos. Ê nessa hora que voce deve valer-se de sua arrogancia e colocar-se inatingîvel como um deus.
Ótimo entrevista, parabéns!
“Nicholas Ref”? Acho que você quis dizer “Nicolas (Winding) Refn…
Opa, comemos uma letra. Obrigada pelo aviso Rafael!