Cine Splendor entrevista Rubens Ewald Filho

Como o perfil do próprio blog aponta, com mais de quarenta anos de profissão, Rubens Ewald Filho é um pioneiro na imprensa brasileira, o primeiro a escrever sobre filmes na TV e primeiro crítico a trabalhar numa televisão por assinatura. Assim, sendo um dos profissionais de cinemas mais reconhecidos do país, ele encontrou um pequeno espaço em sua agenda para conversar com a equipe do Cine Splendor sobre suas origens, a paixão pelo cinema e seu trabalho. Trabalhando ativamente em uma adaptação atualizada do “Dicionário de Cineastas” – em formato e-book, com comprometimento de atualização e mais completo que as edições impressas – Rubens respondeu a todas as perguntas esbanjando simpatia.

O ponto de partida de nossa conversa foi o amor pelos espetáculos da Broadway. “Para mim as duas coisas sempre estiveram muito ligadas”, diz ao ser questionado sobre seu envolvimento com a arte, “Eu comecei em um grupo de teatro, escondido da família, nunca quis ser ator mas sempre estive envolvido com essa arte. Tive um momento importante quando meu pai me mandou para os EUA e vi meu primeiro show na Broadway. O teatro sempre esteve paralelo à carreira com o cinema.

Quanto a preferência por atores em tela ou palcos, deixa claro que gosta de atuação com qualidade, independente do meio; “Na verdade gosto de ver ator representando. Respeito as pessoas que deram prazer e me ensinaram muita coisa na arte, não sou fanático, admiro”, complementando que dessa admiração surgiu a coleção Aplauso, que visa eternizar a vida e obra de grandes nomes da cultura audiovisual do nosso país.

Sem ligar-se a estereótipos, explica-nos o motivo de cultivar uma imagem diferente, rejeitando o título de “crítico de cinema”: “Acho crítico uma coisa muito destrutiva, o crítico é controlado pelo espaço, pelo editor, pela pressão do local onde trabalha, pelo dono do cinema, por exemplo. Ele é sujeito a pressões e diante disso precisa produzir um texto interessante, engraçado, divertido e bonito, mas que acaba perdendo o respeito, forçado pela situação. Então resolvi pegar a bandeira de amor pelo cinema que a França tinha, aquilo me tocou. ‘Quem ama o cinema ama a vida, quem ama a vida ama o cinema’”; e quando passamos a falar sobre a ausência de uma personalidade de cinema na televisão brasileira, complementa: “Eu acho mais importante passar essa mensagem que ficar falando mal de algo ou alguém. As pessoas podem não me conhecer, mas me veem e dizem: ‘Você é o cara do cinema.’ e é o que eu queria, que relacionassem a isso”, esclarecendo que as ligações com o Oscar ocorrem somente quando a cerimônia anual aproxima-se.

Sobre os primórdios de sua relação com o cinema, explica que tem sua infância marcada pelos filmes que viu e somente uns 10 flashbacks de outros momentos. “A explicação, quando você bloqueia algo na memória, é de que havia muito sofrimento e você estanca aquilo para não te perturbar. Acho que agora não há mais utilidade em tentar descobrir o porquê de estar bloqueado, seja o que for já resolvi, mas isso explica o por que da minha timidez, demorei 30 anos para descobrir que eu era inteligente, então o cinema era minha ‘droga’, minha forma de aprender. O cinema era muito importante para mim, era um guia de tudo, um grande professor. Assim, passei a anotar tudo que eu via. Comecei a escrever em caderninho com 9, 10 anos, todos os filmes que vi, com cotação e tudo” diz, deixando-nos maravilhados com sua capacidade em transformar o hobby em profissão.

Dando continuidade ao raciocínio, fala sobre a sorte que ao crescer em um momento muito importante e bom do cinema, com a nouvelle vague, o desenvolvimento do cinema italiano, fim de Hollywood estúdio e começo do cinema independente. “Fiz a crítica do primeiro filme de Coppolla, Scorsese, Spielberg, vi todos eles ‘nascendo’ e…hoje ainda são eles! “, afirma ao explicar que os grandes diretores de cinema não duram mais de 10 anos, “Todos os grandes diretores de cinema não duram mais de 10 anos, então os grandes diretores da minha juventude passaram a fazer filminhos. Cinema é coisa de jovem e, com frequência, o primeiro ou segundo filme do diretor são os melhores.

Mudando nosso rumo para o público e sua receptividade, conversamos sobre televisão – na qual a mensagem deve ser “direta e precisa” -, mídias impressas e, claro, a exposição e facilidade da internet, veículo sobre o qual mais tempo permanecemos discutindo. Dessa forma, questionamos sobre como atingir o público e produzir algo de qualidade, recebendo uma aula como resposta: “Um bom termômetro é o cinema nacional. Se você elogia muito cinema nacional, por exemplo, desacredita. O cinema brasileiro é um fio da navalha, se for ruim demais, não fale. Ninguém vai ver. Sobre os demais, levante as coisas importantes. A grande chave é que a crítica considera o público burro, e isso é muito errado. O público gosta de cinema e tem percepção de bom senso, tem sensibilidade, algo que a gente perdeu. Nunca subestime o público, ele é sábio, tem faro, sente. E quando erra, pois o filme pode ser bom e ninguém ir atrás, é que entra nossa função. Tem filmes que podemos ajudar, fazer a reputação dele.

Aproveitando a deixa, resolvemos perguntar sua opinião sobre as produções nacionais, principalmente no gênero comédia: “A crítica não tem senso de humor, não gosta de comédia, e se você não tem senso de humor, não tem como viver. As pessoas não sabem como é difícil fazer comédia mas adoram falar mal de comédia brasileira e eu discordo disso. Tem coisas exageradas, é normal se perder, mas tem pontos positivos”, concluindo que, definitivamente, há problemas com o sucesso alheio. “Dois anos atrás só eram feitos filmes para família e criticavam isso, agora fazem para o público e são caçados pela imprensa. Não tem que ter preconceito! Não pode entrar no cinema com nenhum conceito. A crítica não ajuda o cinema brasileiro…

Quanto a sinceridade ao lidar com os leitores, espectadores e afins, Rubens deixa claro que sempre preza pela honestidade, seja no meio profissional – “O público precisa saber que estou falando a verdade, ter credibilidade, em momento algum engano ele. Nunca minto em uma crítica, jamais.” – ou em outros aspectos da vida, fator que nem sempre o favoreceu. “Eu sou sempre sincero e honesto. Descobri há pouco tempo que um familiar me roubava e quase morri por que sempre fui de uma honestidade única, sempre. Sou leal, super profissional, mas o mundo é cruel com a gente, isso me abalou muito. É uma situação extremamente contraditória. Sou absurdamente sincero, honesto, sofri com isso na adolescência, tive que aprender a moderar isso. As pessoas não gostam que você fale a verdade pois ela é muito relativa e para no momento em que você ofende os outros“ completa, alegando que ninguém é mal de tudo e, por isso, atualmente, elogia sempre que tem a oportunidade. “Não estou rico, mas estou honesto, bem comigo.

Finalizando nossa breve conversa, pedimos que Rubens deixasse alguma mensagem para os apaixonados por cinema e fomos surpreendidos com uma mensagem de puro amor: “O cinema é uma janela aberta para o mundo, aprendi tudo com ele. Aprendi a me apaixonar e comer sushi, aprendi coisas para o bem e mal. No final, seus amores te largam, abandonam, somem os amigos, família, e o cinema está lá, o filme continua o mesmo e as vezes até melhora! As coisas passam, mas a relação que temos com o cinema é para a vida toda, algo raro pois nada é para a vida toda, nada além do cinema e aquilo que você extraiu dele.

Para ler as críticas, opiniões e textos de Rubens, acesse seu blog no canal R7: Rubens Ewald Filho.


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