O humor, não só como gênero cinematográfico, mas também como prática social, é relativo e cíclico. Dito isso, pergunto: por quê refilmar um clássico?
Salvo algumas exceções onde o próprio autor refaz a obra buscando atualização técnica ou maior acessibilidade, não me lembro de refilmagens muito bem sucedidas. “Os Produtores” é um desses exemplos: enfadonho e modorrento, seu produto final tenta reunir destaques do longa original com o brilho do posterior espetáculo da Broadway e acaba arrastado, sem charme ou encanto.
Para os que não conhecem, a trama trata do produtor Max Bialystock (vivido por Zero Mostel em “Primavera para Hitler” e por Nathan Lane em “Os Produtores”) que desenvolve com o contador Leo Bloom (Gene Wilder em 98 e Matthew Broderick no remake) um plano mirabolante para levantar grana. Trata-se da produção de um espetáculo terrivelmente tosco que seria cancelado logo na estréia, após ambos já terem embolsado uma parte generosa do dinheiro dos investidores.
Para tal realização eles unem o texto de um nazista erradicado com uma direção burlesca e a performance protagonista e canastra do führer Adolf Hitler. Bizarro, mas coerente e único. Um expoente da filmografia de Brooks e um ícone do cinema de humor. Um tipo extrapolativo ”over the top” de comédia altamente eficaz na década de 60/70, exagerado e fadado à obsolescência.
Mas “Os Produtores” é, por vezes, um disfarce. Características fundamentais do humor do mestre são importadas com desleixo (berros, caretas, extravagância, irreverência) ficando bizarras e inconvenientes além do limite – e sem se preocupar em conciliar o melhor das duas referências, a realização acaba inconsistente e indigesta, longa em demasia e tão convincente como a dramaturga Susan Stroman vestida de Mel Brooks. O que muda, muda pra pior, e o que é fiel, permanece idêntico à décadas atrás, datado, rançoso.
Cenas de teatro, apesar de garbosas e sacadas, pesam contra o sucesso da película esticando a projeção e contraindo a paciência do espectador. O que poderia ser uma produção decente terminou torta e anacrônica.
“Os Produtores” é uma mulher linda que exagerou na maquiagem, uma falha miserável de execução e conciliação que não agrada nem aos fãs de Brooks, nem aos apreciadores de musicais e, apesar de maculado por esse traque, o marco inicial da carreira (descendente) de um dos mestres do humor permanece obsoleto e irretocável nas prateleiras dos cinéfilos. Passe longe de “Os Produtores”.
Artigo redigido por Arthur Feital, ex-colunista do Cine Splendor.










“Os produtores” é quase insuportável, mas gosto da atuação de Nathan Lane. E Will Ferrell é um comediante com atuações dignas de “guilty pleasures”.
Dito isso, “Primavera para Hitler” é ótimo e está entre minhas comédias favoritas.