Michael Haneke saúda o público médio convidando sua face mais hedionda à um espetáculo. Seu primeiro trabalho em Hollywood nada mais é que a refilmagem literal, quadro a quadro, de um dos mais representativos longas de sua antropológica e sádica filmografia.
Em “Violência Gratuita” (Funny Games U.S), de 2007, o obscuro e germânico elenco da produção original de dez anos antes é substituído pelos rostos conhecidos de Naomi Watts e Tim Roth, pela atuação do galã indie norte-americano Michael Pitt (de “Os Sonhadores“, de Bertolucci) e por demais coadjuvantes igualmente estranhos ao grosso da audiência.
Para os perdidos, eis o norte: uma família típica de classe alta, constituída por um casal de pais (Susanne Lothar e Ulrich Mühe / Watts e Roth) e um filho pequeno, vivido intensamente pelos atores mirins em ambas as versões, vão descansar durante uma temporada em sua casa de campo, onde são feitos reféns por uma dupla de jovens psicopatas vizinhos que os obriga a passar pelas mais intensas e sujas provações pelo prazer do entretenimento.
Como nas artes mais tradicionais o cinema tem também suas filmografias autorais, e o austríaco Michael Haneke sem dúvidas detém os créditos de uma dessas. Seu discurso sempre afiado e contundente prima por provocar a auto-reflexão do expectador – muitas vezes expondo os piores e mais ocultos sentimentos que o homem guarda na alma. E é isso que ele faz nos seus filmes-clone de mesmo título. De início, frisando a apreciação da agressividade numa composição paradoxal genial onde a trilha sonora clássica do carro da família é substituída por um Rock N’ Roll anárquico de pós-produção que exacerba o sentimento lúdico dos seus “animais racionais” em ambas as possibilidades, com o respaldo e a maleabilidade do seu argumento, Haneke conduz através de Paul (Arno Frisch / Michael Pitt) o olhar do espectador através dos caminhos mais tortuosos e inconvenientes da sua consciência, ilustrados pelas tarefas sádicas a que o casal protagonista é submetido.
Difícil para qualquer um dar um depoimento honesto sobre a repercussão subjetiva de uma obra desse autor, assim como admitir alguma identificação, por mais naturais e intrínsecos que certos aspectos comportamentais da espécie humana possam ser. Até mesmo os mocinhos do filme deixam transparecer através de suas facetas amarrotadas o desejo voraz de carnificina e assassinato que eles nutrem contra os torturadores conforme as horas passam, ficando mais difícil passar mentalmente ilesos pela madrugada. Michael Haneke alfineta, principalmente, a hipocrisia, ora em uma cena em que, para “preservar a decência moral”, Paul ensaca a cabeça da criança para evitar que esta veja a mãe chorosa se despir; ora encarnando o próprio Paul e falando diretamente ao espectador, num tom horrendamente teatral.
Até mesmo na composição do figurino dos jovens transtornados, que ostentam roupas e luvas impecavelmente brancas, algo que além de denotar o metodismo típico de assassinos em série, dá margem à interpretação do espectador do fascínio lícito destes pela violência e desgraça alheia.
Enfim, nunca o nome dessa coluna fez tanto sentido quanto agora, com Michael Haneke e sua reprodução impecável, quadro a quadro, do mesmíssimo filme, trocando apenas os atores. Um convite solene ao norte-americano para sua filmografia e uma quase igualmente eficiente reexibição do filme de 1997 à quem já o tenha assistido. A refilmagem é legítima até demais, é verdade, mas não deixa de ser uma opção a mais para acompanhar esse contundente “Ensaio sobre a violência”. Escolha seu casting favorito e esteja preparado para os tais “jogos engraçados”.










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