“TITANIC” | Parte I – O naufrágio do inafundável

Postal de 1912 estampado com o imponente navio

Em 16 de Janeiro de 1998, quase 15 anos atrás, estreava no Brasil um longa que seria lembrado, adorado e marcado na história do cinema. Nele, um diretor perfeccionista contaria uma história de amor fictícia, estrelada por dois jovens atores, homenageando o navio mais conhecido do mundo, aquele que por ironia do destino acabaria indo contra seu principal marketing de lançamento e afundaria dramaticamente. O diretor, James Cameron; suas estrelas, Leonardo DiCaprio e Kate Winslet; sua obra-prima, “Titanic“.

Motivado tanto pelos 100 anos da tragédia que lhe serviu de inspiração, quanto para comemorar os 15 anos marcados por sucesso desde sua estreia, “Titanic” retorna aos cinemas nesta sexta-feira, dia 13 de abril de 2012, convertido em 3D, permitindo que uma nova geração o conheça e que seus fãs matem a saudade de Jack e Rose nas grandes telas. Assim, entrando no clima da comemoração do memorável longa, o Cine Splendor resolveu homenageá-lo com um especial que falará do navio, sua história, as produções cinematográficas que fazem menção a ele e, claro, a obra de 1997, que o eternizou.

Nesta primeira parte, comentaremos sobre a história real do navio e citaremos alguns dos filmes que foram livremente baseadas nesses fatos. Confira!

Imagem retirada de um jornal Belga sobre o desastre


A TRAGÉDIA DO RMS TITANIC



Em 10 de abril de 1912, um luxuoso navio saiu de Southampton, na Inglaterra, com destino a Nova York, nos Estados Unidos – passando por Cherbourg, na França, e Queenstown, na Irlanda. Transportando pessoas de todas as classes sociais, o transatlântico construído nos estaleiros da Harland and Wolff, em Belfast na Irlanda do Norte, foi inaugurado com extremo fervor, sendo um dos maiores e mais luxuosos navios de sua época a operar. Seus projetistas e “patrocinadores” – Lorde William Pirrie, diretor da Harland and Wolff e da White Star; o arquiteto naval Thomas Andrews, gerente de construção e chefe do departamento de design da Harland and Wolff; Alexander Carlisle, projetista chefe e gerente geral do estaleiro; e o norte-americano J. P. Morgan, que cedeu parte dos 1,5 milhão de libras (7,5 milhões de dólares) que financiaram o lançamento – iniciaram em 31 de março de 1909 sua construção e consideravam-o “inafundável” devido seu casco duplo de aço e seus 16 compartimentos estanques à prova d’água, fechados com portas maciças. Assim, com 2.200 pessoas, há exatos 100 anos atrás, o Titanic tinha por missão cruzar o Atlântico norte, objetivo para o qual passou três anos preparando-se.

Titanic durante sua equipagem

O navio, segundo de três lançados com esse porte, capaz de transportar 3.547 pessoas – entre passageiros e tripulação – contava com 269,10 m de comprimento, 28 m de largura, 18m de altura e tonelagem bruta de 46.328 T. Sua movimentação era possível devido aos dois motores de quatro cilindros de expansão tripla, os motores a vapor e uma turbina de baixa pressão e três hélices, que retiravam sua “energia” das 29 caldeiras alimentadas por 159 fornos de carvão a combustão que tornaram possível a velocidade máxima de 23 nós (43 km/h). Atualmente, toda essa potência pode não significar muito para nós, mas em 1912, o Titanic e seus “irmãos” Olympic e Britannic (originalmente chamado de Gigantic) superavam todos os rivais em termos de luxo, capacidade e opulência.

A seção da primeira-classe do navio contava com piscina, ginásio, quadra de squash e um Café, entre outras mordomias, e suas salas comuns eram adornadas com painéis de madeira esculpidos, móveis caros e outras decorações. Havia bibliotecas e cabeleireiros tanto na primeira como na segunda classe, e a sala geral da terceira-classe tinha painéis de pinheiro e móveis robustos, além de água quente encanada, algo que muitos dos passageiros não dispunham em seus próprios lares. O RMS Titanic (Royal Mail Ship, livremente traduzido como Navio do Correio Real) incorporou recursos tecnológicos avançados para a época, como três elevadores elétricos, um subsistema elétrico alimentado por geradores, fiação elétrica e dois rádios Marconi.

Na época, o regulamento da Board of Trade dizia que os navios britânicos com mais de 10.000 toneladas deveriam carregar 16 botes com uma capacidade de 160 metros cúbicos, mais uma capacidade para 75% daquelas dos botes em jangadas e flutuadores (ou 50% caso o navio possuísse anteparas estanques) e, com 16 botes mais 4 desmontáveis, a White Star Line contava com mais botes do que o obrigado pela legislação, embora, de qualquer modo, a quantidade fosse suficiente somente para 1.178 pessoas (33% de capacidade total à bordo). Afinal, ninguém contava com oque iria acontecer quatro dias após embarcarem rumo aos EUA…

Bilhete de embarque no navio

Assim, na madrugada de 14 para 15 de abril de 1912, o inimaginável aconteceu e o imponente Titanic acabou colidindo com um iceberg em uma noite em que, de acordo com o relato de alguns dos sobreviventes, o céu estava muito escuro e limpo, sem lua, cheio de estrelas, com mar igualmente calmo – o que prejudica a visualização de icebergs já que, como citado no filme de 1997, “fica difícil notar as ondas quebrandos em suas laterais“. O Capitão Smith, diferentemente do que pensa a maioria, em resposta aos avisos de icebergs recebidos pelo rádio nos dias anteriores, traçou um novo curso que levava o navio um pouco mais o sul. Relata-se que os verdadeiros responsáveis – se é que alguém pode ser incumbido dessa fatalidade – pelo choque do navio foram Jack Phillips e Harold Bride, que naquele dia receberam mensagens do Amerika e Mesaba sobre grandes icebergs na rota do navio e, como operadores do dispositivo Marconi de rádio e empregados da Marconi pagos para retransmitir mensagens para passageiros, não deram importância e evitaram retransmitir mensagens sobre o gelo.
O iceberg foi visto às 23h40 e atingiu o navio menos de um minuto depois, atingindo estibordo (lado direito) e soltando os rebites de junção do casco por cerca de 90m, o correspondente a cerca de 5 compartimentos, sendo que, com 4 compartimentos inundados, o navio conseguiria seguir viagem. O destino zombou do apelido de “inafundável” cedido ao potente navio, que começou a se encher de água e afundar.

Por volta das 0h31 os botes emergenciais começaram a ser preenchidos com “mulheres e crianças primeiro“, sendo a evacuação feita de acordo com as classes sociais a que os passageiros pertenciam, algo aceitável na época. O último sinal de socorro transmitido pelos telegrafistas foi emitido às 2h10 e oito minutos após, as luzes do transatlântico apagaram-se para sempre.

Quando a inclinação do navio chegou aos 29°, devido a pressão exercida no centro do navio, este rompeu-se junto à terceira chaminé, dividindo o barco em dois. A popa, pesando vinte mil toneladas, desabou por cima de dezenas de passageiros e, quando a proa submergiu, arrastou a popa, deixando-a na vertical. Segundos depois, desprendendo-se da popa, a proa mergulha para as profundezas seguida, quase dois minutos depois, pela popa. Às 2h20 o navio mergulha a pique pelas profundezas do oceano.

Aqueles que não morreram durante o naufrágio lutaram pela vida nas águas, esperando pelo socorro que nunca veio, com a exceção de um bote que não se limitou esperar e, após transferir seus passageiros para outro próximo, retornou ao local do naufrágio para recolher alguns possíveis sobreviventes a hipotermia, resgatando apenas 6 das milhares de pessoas que ficaram no mar.

O socorro aos sobreviventes deu-se somente as 4h10 do dia 15 de Abril, quando o navio Carpathia resgatou o primeiro bote salva-vidas, seguido de outros navios que, muito distantes, aproximavam-se no horizonte, entre eles o Californian. Das 2.223 pessoas a bordo, apenas 706 foram resgatadas e o Titanic tornou-se o símbolo de uma das maiores tragédias marítimas da história. Bravamente o Capitão Smith e o engenheiro-chefe Thomas Andrews permaneceram no navio, mas Bruce Ismay, presidente da White Star Line, embarcou em um dos últimos botes que deixou o navio, atitude que nunca foi perdoada.





FILMES



Em 1912 o RMS TITANIC colidiu com um iceberg e naufragou no Oceano Atlântico. Devido ao número de botes insuficiente para salvar todos à bordo, cerca de 1500 pessoas foram vítimas letais da tragédia. A história do navio, porém, sobreviveu e chamou atenção da mídia, sendo divulgada em escala mundial e, até hoje, servindo de inspiração para obras de arte, especialmente para o cinema.

Antes de focar na obra mais conhecida, que dirigida por James Cameron eternizou a memória da tragédia e integra a segunda parte do especial, confira alguns filmes onde há aparições e menções significativas ao navio nos cinemas:

Saved from the Titanic (1912)
10 minutos | Estados Unidos

Foi o primeiro dos filmes sobre o Titanic e acabou destruído em um incêndio dos Estúdios Eclair em 1914, sendo hoje considerado totalmente perdido e com raríssimas fotografias em preto e branco afirmando sua existência. Suas gravações começaram poucos dias após a tragédia, tendo o filme estreado em 14 de maio de 1912 – apenas 29 dias depois do naufrágio . No elenco, contamos com a presença de Dorothy Gibson, atriz que realmente estava a bordo do RMS Titanic na noite do acidente, salva no bote Nº 07 e, aqui, interpretando a si mesma.

Há relatos de que Dorothy usou nas cenas as mesmas roupas que estava usando na noite do naufrágio real. É o único de todos os filmes já produzidos sobre o Titanic que conta com a atuação de uma real sobrevivente do desastre e, apesar de produzido imediatamente após o ocorrido, não passa de uma dramatização com foco principamente ficcional, contada em forma de flash-backs vividos pela personagem principal, Dorothy Gibson.


In Nacht und Eis (1912)
30 minutos | Alemanha

Em 1914, o filme foi considerado perdido para sempre mas, em 1998, foi encontrado sob a posse de um colecionador alemão. Suas filmagens começaram durante o verão de 1912, tendo a produção estreado no inverno do mesmo ano. Seus efeitos especiais, embora primitivos quando comparados aos atuais, eram bastante impressionantes e sagazes contando, inclusive, com um Titanic de brinquedo que, para a cena do naugráfio, colide contra um bloco de gelo num pequeno lago e afunda.

Como a maioria dos filmes que aborda o tema, a produção é ficcional. Produzido pelo Estúdio Continental Films, de Berlim, há indícios de que parte da trama foi gravada a bordo do paquete alemão Kaiserin Auguste Victoria.
Com duração de aproximadamente 30 minutos, “In Nacht und Eis” é três vezes mais longo do que a 70% dos filmes de 1912.


Titanic (1943)
85 minutos | Alemanha

O primeiro filme cujo título leva o nome da embarcação foi utilizado para fazer propaganda nazista e anti-britânica. O teatro onde ocorreria a estreia do longa foi bombardeado na noite anterior ao evento e o filme esteve banido durante vários anos, ressurgindo na década de 1990, quando foi cuidadosamente restaurado.

O diretor Herbert Selpin, durante as gravações, acabou entrando em conflito com o Ministro da Propaganda Alemã, Joseph Goebbels, foi preso e encontrado morto 24 horas depois, provavelmente assassinado pelo regime nazista de Hitler que regia a Alemanha em 1942. A produção então foi passada para o diretor Werner Klingler e só assim foi finalizada.

Algumas das cenas foram gravadas no navio SS Cap Arcona, bombardeado por aviões em maio de 1945 com cerca de 5.000 vítimas.


Titanic (1953)
98 minutos | Estados Unidos

Com cenas bem executadas e uma das primeiras tramas acerca de um casal a bordo do navio, é um filme que peca ao explorar fatos inexistentes. Durante sua cena de naufrágio ouve-se uma sirene de emergência mantida até as cenas finais, algo inexistente nos navios a época em que o navio verdadeiro afundou.

A maquete utilizada para os efeitos especiais do longa foi preservada e perdura até hoje.


A Night to remember / Somente Deus por Testemunha (1958)
123 minutos | Inglaterra

Diretamente baseado no livro “A Night to Remember“, de Walter Lord, escrito com depoimentos diretos de passageiros reais do Titanic, o longa conta com cenários muito similares as disposições do navio real.

Durante sua produção, o diretor Roy Ward Baker recebeu consultoria técnica direta de Joseph G. Boxhall, o terceiro Oficial do RMS Titanic. Fora isso, vários outros sobreviventes estiveram assistindo as gravações, inclusive a filha do Capitão Edward John Smith que, ao ver o ator Lawrence Naismith (intérprete do capitão) emocionou-se devido a semelhança entre ele e seu pai, morto na tragédia em 1912.

Com cenas reaproveitadas do filme de 1943, este é considerado o 2º melhor filme sobre o assunto, além de ser O MAIS PRECISO.


Raise the Titanic / O Resgate do Titanic (1980)
119 minutos | Inglaterra/Estados Unidos

Recriando a história do naufrágio para a época em que foi filmado – ou seja: a trama não ocorre em 1912 mas sim na década de 80 – o longa foi inspirado no livro “Raise the Titanic“, de Clive Cussler.
Enorme fracasso de bilheteria, tendo o próprio escritor detestado a adaptação de seu livro, o filme não conseguiu cobrir seus altos custos de produção, como a maquete do Titanic utilizada nos efeitos especiais, a maior já construída e que ainda hoje existe, abandonada ao ar livre na propriedade onde o filme foi rodado.

As cenas de convés foram filmadas a bordo do navio SS Athinai, um navio de passageiros que estava abandonado em um porto da Grécia e, assim como aponta o título, o filme não mostra o naufrágio, mas sim o resgate do navio das profundezas do oceano.




* Veículos utilizados na pesquisa deste artigo: Blog Titanic em Foco, Titanic & Nautical Resource Center, Titanic Research and Modeling Association, Atlantic Liners, Titanic’s Sea Trials e IMDB.


Sobre Teeh Schwarz


Crítica de cinema desde 2007, é apaixonada por audiovisual em geral. Reza para um Deus particular, chamado James Cameron, e tem carinho especial pelas colaborações de Marilyn Monroe e Marcello Mastroianni para a sétima arte. Integrou as equipes dos sites Cinema & Afins, Pipoca Moderna e Stuff of Artie. Atualmente dirige e editora o Cine Splendor, além de manter colunas quinzenais sobre fotografia e literatura no Tardis.