“Os Duelistas” marca a estreia de um dos diretores mais renomados do cinema contemporâneo, que está de volta “a moda” com o lançamento de “Prometheus”, lançado em todo o país nessa semana.
Ridley Scott é um dos primeiros diretores oriundos da publicidade, abraçados pelo cinema. Depois de uma bem-sucedida carreira no mercado dos comerciais, Ridley decidiu estrear no mundo dos longas-metragens com uma história adaptada do grande Joseph Conrad (cujo trabalho mais famoso é “Heart of Darkness”, a base para, entre outros filmes, “Apocalypse Now”), sobre um duelo entre dois homens que se estende por quinze anos de suas vidas.
Hoje conhecido por sua participação na série de TV “Dexter”, Keith Carradine, dono de uma excelente filmografia que inclui “Nashville”, pelo qual ganhou o Oscar de melhor canção, vive D’Hubert um sedutor e sutil oficial do exército napoleônico. Ele é enviado para decretar a prisão de um outro oficial, o sanguíneo e explosivo Feraud (Harvey Keitel, dispensando apresentações), que havia ferido o sobrinho do prefeito da cidade onde ambos estavam em um duelo.
Feraud, ofendido com a – na visão dele – audácia de D’Hubert, o desafia para o primeiro dos vários duelos que marcam a historia do filme. Ao invés de ficar aqui contando quem vence quem e de que forma, apenas digo ao leitor, se ainda não viu o filme, que cada um dos combates é cercado de elementos visuais que os diferenciam uns dos outros.
Scott fez de “Os Duelistas” seu “case”, apresentando suas habilidades como esteta e diretor, aproveitando-se dos muitos cenários diferentes necessários para contar a história. Além disso, transformou cada duelo em uma luta de homens contra a natureza, já que as disputas acontecem em campos abertos, nos quais o diretor enfatiza os closes ao mesmo tempo em que reverencia o ambiente mostrado, ou em porões de pedra, nos quais a batalha é sangrenta e acompanha mais de perto pela câmera, transformando até mesmo a poeira em um elemento cênico importante para a história.
O cineasta também aproveita o filme para começar a experimentar o “chiaroescuro” nas cenas internas, elemento tão bem utilizado em “Alien”, por exemplo. Aqui, ele surge em alguns momentos, principalmente nas cenas que se passam em uma espécie de taverna, onde a intenção é induzir à compreensão de que a iluminação provinha apenas das poucas velas do local. A iluminação não é ortodoxa, é angular e beira o noir em alguns momentos, com personagens, entrando e saindo das sombras com frequência.
O diretor também se aproveita dos elementos climáticos para experimentar ao máximo. Desde ensolarados dias de verão, até o mais terrível inverno russo (onde os diversos soldados franceses mortos na fatídica investida de Napoleão contra os cossacos são mostrados), passando pelo clima do alvorecer, quando a névoa está baixando e cobrindo o terreno da disputa, ele tenta manter cada uma das pelejas diferentes e interessantes.
Outro elemento que vem a se tornar marca do diretor é seu apuro técnico com a composição de seus planos. Seu perfeccionismo fica claro já no primeiro take do filme. O retrato quase obsessivo da época esbarra no que Stanley Kubrick havia imaginado para seu “Barry Lyndon”, com a tentativa de seus planos em reproduzir quadros da época, ou mesmo o estilo de arte da época, mesmo este não sendo um filme sobre a corte, mas sobre uma obsessão.
A montagem é outro destaque. Mesmo depois de mais de trinta anos, continua bastante atual, criando tensão no espectador. O grande destaque do quesito é no duelo a cavalo entre D’Hubert e Feraud, que emula as emoções e a tensão constante no rosto do personagem de Carradine diante daquele duelo entre a neblina em um corredor formado por árvores do outono. Inserem-se pequenos flashes que recapitulam os eventos compartilhados até ali pelos personagens, a vida de D’Hubert e seus envolvimentos amorosos, seus pensamentos e intenções. Tudo sem dar ao espectador a noção do que realmente visto.
Estaremos o tempo todo vendo “um filme” na cabeça do personagem? Ou um desejo? Uma realidade diante de nossos olhos? Scott é maduro o suficiente para não dar pistas, revelando apenas no último segundo o destino dessa batalha. Uma sequência de tirar o fôlego e tecnicamente irrepreensível.
O que pode incomodar um pouco o espectador é o excesso de frieza com que a história é apresentada. Vemos toda a ação pelos olhos de Carradine, todas as suas conquistas, vitórias e derrotas. A exceção de três momentos, incluindo aí a cena inicial que serve de prólogo para apresentação ao gosto de Feraud pelos duelos, Carradine está sempre no centro da ação, e portanto, nada sabemos sobre o personagem de Keitel.
De onde vem? O que sonha? O que o motiva? Isso não é respondido de forma direta, mas tamanha obsessão com os incessantes duelos possivelmente tem origem em um deturpado (ou não) sentido de honra e moral.
Os dois personagens são relíquias de seu tempo. Dois homens honrados e que lutam pelo que acreditam, cada um à sua maneira, pregados em um período histórico onde a obediência mudava de senhor com frequência.
Como se manter honrado diante desse cenário, principalmente quando se arrisca a vida para defender um ideal? Talvez seja esse o segredo de “Os Duelistas”. Muito mais do que uma série bem fotografada de duelos, um filme sobre dois homens que perseguem a honra e que sabem que ela deve ser defendida. Embora Keitel a veja de forma cega e Carradine tenha se adaptado ao mundo em que vive.
O final do filme é emblemático sobre essa ideia. Enquanto um homem encontra finalmente sua paz, o outro observa sua terra, sem conseguir enxergar mais motivação para defendê-la. Um lugar onde a honra era lavada com sangue, na ponta de uma espada.
Ficha Técnica
Os Duelistas
The Duellists (1977 | 100 min.)
Gênero: Drama, Ação, Aventura
Direção: Ridley Scott
Elenco: Keith Carradine, Harvey Keitel, Albert Finney, Cristina Raines, Alun Armstrong
Durante o período Napoleônico, dois oficiais do exército francês começam um duelo que se arrastará por mais de uma década de suas vidas. Enquanto o sanguíneo Feraud (Harvey Keitel) busca uma incessante disputa, o moderado D’Hubert (Keith Carradine) tenta a todo custo manter sua vida nos eixos.
Artigo redigido por Alexandre Landucci, ex-colunista do Cine Splendor.





Bela estreia do Scott! Desse até seu terceiro filme (BLADE RUNNER), o diretor só fez coisa de qualidade. Depois…