Dia 5 de todo mês é dia de Mudança de Hábito! Para quem já conhece, seja bem vindo. Para quem pulou de paraquedas, vou informá-lo do que se trata a coluna: já virou praxe no mundo do cinema surgirem obras adaptadas de outras mídias, como livros, quadrinhos, séries de televisão e até games. A MdH trata basicamente disto: mostrar a origem da adaptação, sua mídia original e comentar suas incursões ao mundo da sétima arte.
Deu pra entender um pouco né? Leia abaixo a escolha desse mês, talvez fique ainda mais claro.
A escolha
Para esse mês, a escolha foi um livro que marcou o gênero de terror e ficção cientifica – e inspirou diversos outros livros e filmes que surgiriam posteriormente. Estou falando de “Eu Sou a Lenda” (“I Am Legend”, em inglês).
O Início
“Eu Sou a Lenda” foi escrito por Richard Matheson e publicado no ano de 1954. Um sucesso de crítica e vendas, a história de Robert Neville logo seria alçada para o status de um marco na literatura moderna de terror.
Atemporal, a mítica criada por Matheson envolvendo vampiros e o apocalipse logo se mostraria grande influência para o surgimento e desenvolvimento de zumbis e outras histórias retratando o mundo devastado por alguma bactéria. Foi uma das inspirações, inclusive, para George Romero criar, em 1968, o filme “A Noite dos Mortos Vivos”.
Um livro relativamente curto, com 162 páginas, que conseguia ser empolgante e criar rápido um vinculo entre o leitor e o personagem do livro, vivendo numa solidão gigantesca mas rodeado de vampiros sedentos pelo seu sangue. O conceito de lenda, a inversão de papéis e o final surpreendente apenas contribuíram ainda mais para a obra ser considerada um clássico. Mas então decidiram adaptá-la para os cinemas…
Indo para os Cinemas
Dez anos após o lançamento do livro, no ano de 1964, a primeira adaptação chegava aos cinemas com o nome de “Mortos que Matam”. No longa, Robert Neville é um cientista que vive sozinho num mundo tomado pelos vampiros. Tentando sobreviver a cada dia, acompanhamos sua vida, o flashback da história de sua família e como o mundo se tornou aquele caos.
De todas as versões para o cinema, essa foi a que mais próximo permaneceu ao original: existem os vampiros que são repelidos com espelhos e alhos, Neville vive sozinho numa casa protegida e durante o dia parte para matar vampiros e procurar coisas para deixar sua moradia mais segura ou arrumar pedaços que faltam. Elementos do livro que continuam nessa primeira adaptação. Inclusive o conceito que permeia o livro, de o protagonista ser um monstro, uma lenda, aqui é mencionada. Um dos pontos que mais o distorcem do original, porém, é o seu final, que perde – e muito – o impacto e a mensagem final.
Dirigido por Ubaldo Ragona, o filme em preto e branco não resistiu ao tempo, sendo bem arrastado ao longo de 86 minutos, mas ainda assim interessante para os fãs do material original.
Sete anos depois, novamente a história é adaptada para as telas de cinema. Com o nome de “A Última Esperança da Humanidade”, a trama já começa a distorcer forte da sua contraparte original visto que Neville agora é um coronel/cientista que busca a cura para a PRAGA (e não mais ao vampirismo). Vivendo sozinho num sobrado, ele passa o dia procurando pelo esconderijo da seita “The Family”, que sucumbiu à praga conscientemente e quer criar uma nova sociedade que não envolva armas de fogo, ciência, eletricidade, nem nada criado pelo homem. Mas, antes, eles querem dar cabo de Neville – e nesse meio tempo, outros sobreviventes surgem.
O roteiro, escrito por John William Corrington e Joyce Hooper Corrington, vai contra tudo que o livro propõe e trata quando aboli os vampiros da história e trás mais pessoas para a trama. Aquela história de ser o único ser vivo tentando sobreviver vai por água abaixo quando ele decide ser o bom cidadão e ajudar um monte de crianças e outros dois adultos, ao ponto de, em determinado momento do longa, ficar a impressão que ele irá dizer “Eu sou a Lenda. E essas são as crianças.” de tão longe que o filme vai.
Além disso, a própria história traí a sua base fundada quando, próximo ao final, a Família deixa pra lá toda suas regras e decide usar armas de fogo à vontade e a transformação pela praga, que demorava, acontecer de uma hora para a outra e não afetar certos infectados no sol. Além do final, mais uma vez ser alterado, deixando o fim do protagonista sem impacto algum.
Depois desse filme, a história ganhou uma merecida folga de 37 anos. Quase quatro décadas depois, no ano de 2008 era lançado “Eu Sou a Lenda”, protagonizado por Will Smith. O segundo mais destoante do original.
Nele Robert é um cientista que vive sozinho com sua cachorra Marley, vivendo um dia de cada vez enquanto aproveita a vida na cidade. Mas isso até uma determinada hora, pois depois ele deve voltar pra casa e lá ficar até o dia novamente surgir, para se salvar dos caçadores das Trevas.
Na nova versão decidiram dar uma roupagem de blockbuster para o conto original. Colocam explicação para o surgimento do vírus que afeta toda a sociedade, criam flashbacks para um trauma de Neville, inserem Ana e Ethan – dois personagens sem o menor carisma e graça (e quem na Terra não conhece o Bob Marley?) -, os monstros são simplesmente monstros disformes extremamente fortes e o final…o final pega as páginas do livro e rasga na cara de todo fã do original, fazendo com que SPOILER Will Smith se exploda para salvar os outros dois personagens (que se protegem numa portinha de madeira mal fechada). E depois, pra fechar com chave de ouro, só que ao contrário, surgem ainda mais sobreviventes e terminam com a belíssima frase “Essa é a Lenda dele”. FIM DO SPOILER
O que deixa tudo pior, pelo menos para esse que vos escreve, é assistir aos extras do filme. Primeiro, quanto ao making of, é possível ver o diretor Francis Lawrence, o roteirista Akiva Goldsman e o próprio Will Smith dizendo que o interessante no livro era a questão do personagem vivendo sozinho num ambiente desolado, quando na realidade não é sobre isso que o livro trata. O segundo ponto que os extras revelam é um final alternativo que arranha de leve sobre o que realmente o livro trata, da inversão de papéis, com a evolução dos seres tidos até então como monstros. Mas decidiram trocar o final mais subjetivo e inteligente por um mais “comercial” e que não, a meu ver, fizesse o espectador pensar.
“Eu Sou a Lenda”, do Will Smith, custou 150 milhões de dólares e arrecadou a surpreendente quantia de mais de 250 milhões apenas nos Estados Unidos, provavelmente pelo ator no papel principal.
Enfim, o resultado!
Um livro sensacional com elementos que fazem o leitor ser preso naquele mundo solitário e desolador de Robert Neville. Richard Matheson dava ao mundo uma obra ímpar que influenciaria vários outros escritores e roteiristas/diretores do cinema. Mas quando a história em si foi levada para as telas, o resultado foi desastroso.
Dentre as três adaptações, a primeira é a mais fiel ao material original, com direito aos zumbis-vampiros e a Ruth (personagem misteriosa do livro). Quanto às outras duas, essas resolveram criar suas próprias histórias.
A com Charlton Heston é a que mais foge do original, com praga, família, personagem principal sendo infectado e até crianças; enquanto a de Will Smith decidiu pegar um conceito do livro e criar uma trama totalmente sem graça e tensão alguma, com o final mais diferente e abrupto de todos – e quando se vê o alternativo é possível observar um resquício de esperança quanto à ideia do livro.
Mortos que Matam – O Filme Completo
Certos filmes já se encontram em domínio público. O usuário do Youtube LuckyStrike502 tem uma lista só com esses filmes que você pode conferir no canal mesmo. A qualidade não é um primor e não tem legendas, mas caso você esteja com vontade, o filme completo de “Mortos que Matam” está disponível para assistir:
Artigo redigido por Artur Andrade, ex-colunista do Cine Splendor.








