Mudança de Hábito | “Street Fighter”

Dia 5 de todo mês é dia de Mudança de Hábito! Para quem já conhece, seja bem vindo. Para quem pulou de paraquedas, vou informá-lo do que se trata a coluna: já virou praxe no mundo do cinema surgirem obras adaptadas de outras mídias, como livros, quadrinhos, séries de televisão e até games. A MdH trata basicamente disto: mostrar a origem da adaptação, sua mídia original e comentar suas incursões ao mundo da sétima arte.
Deu pra entender um pouco né? Leia abaixo a escolha desse mês, talvez fique ainda mais claro.

A escolha



Há vários games que já foram adaptados para os cinemas. Quase nenhum se salva. Pois bem, saiba que a escolha desse mês é um desses que não se salvam. Bem vindos ao mundo do “Street Fighter”.

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Em 1976 o primeiro game de luta chegava aos mercados, o “Heavyweight Champ”, da Sega para arcades. Com os anos, mais e mais jogos do gênero foram lançados. A Capcom, vendo o sucesso que alguns desses faziam, resolveu que também queria uma fatia desse mercado e, pegando conceitos interessantes de outros dois games que faziam sucesso, mais de uma década depois do primeiro jogo, em agosto de 1987, chegava ao mundo “Street Fighter”.

O primeiro game era simples, trazendo apenas como personagem jogável o Ryu, e com uma história bem básica: Sagat, o rei do Muay Thai, decide criar um torneio chamado Street Fighter para provar a todos que ele é o deus das artes marciais. Com gráficos simples e uma história boba, o game fez sucesso o suficiente para ganhar mais três games, com o subtítulo de Alpha.

Em 1991 chegava aos mercados o icônico “Street Fighter 2″, a “continuação” oficial do primeiro jogo. Agora com uma preocupação um pouco maior com os gráficos e com a história, SF2 foi um sucesso gigante que popularizou o gênero de “lutinha”.

Dessa vez, a história mostra M. Bison, o chefe da organização criminosa Shadaloo, indo para um novo corpo (após eventos do Alpha 3) e decidindo fazer uma segunda edição do torneio para se vingar e dar fim a todos que se opuseram a ele. Dessa vez havia a possibilidade de se controlar oito personagens: Ryu, Ken, Guile, Chun-Li, Blanka, Zangief, Dhalsim e E. Honda, cada um de uma nacionalidade diferente, sendo que Ryu e E. Honda eram japoneses e Ken e Guile americanos – tinha até um brasileiro, o verde Blanka.

Assim, a Capcom tinha achado mais uma mina de ouro, que gerou mais um monte de sequências do segundo game, um monte de sequências de um terceiro, game com lutadores pequenininhos e fofos, jogo de puzzle com luta… uma infinidade de versões até 2006, quando “Street Fighter 4” cheou aos consoles de nova geração – Xbox 360 e Playstation 3 – e gerou mais um monte de “versões” com jogadores novos.

Vai adaptar um game de luta para os cinemas?



Essa deve ter sido uma das perguntas que passou pela cabeça das pessoas que jogavam o game. Adaptar um game de luta que praticamente não tem uma história definida? Pois bem, foi que fizeram: 3 vezes com animação e 2 em live-action.

A primeira vez que os guerreiros de rua foram para telas do cinema foi em 1994, com “Street Fighter II – O Filme”, uma animação japonesa que adaptava o segundo game da série. Dirigido por Gisaburo Suggi e produzido pela própria Capcom, a história se assemelha e é fiel ao game – se é que se pode dizer isso sobre um game de luta sem uma história muito complexa.

A trama é dividida em vários locais do mundo com Ryu, o “campeão mundial dos lutadores de rua”, andando pelo mundo, Guile e Chun Li investigando o caso de uma organização criminosa chamada Shadaloo, comandada por M. Bison, e Ken vencendo alguns torneios de artes marciais. Quando alguns ciborgues de Bison começam a rodar o mundo em busca de novos recrutas para se juntarem a organização, Ryu e companhia começam a procurar alguma forma de encontrar o chefe e por fim ao seu plano do mal.

A animação foi considerada a versão real das histórias de todos os personagens principais, já que no game não havia nenhum aprofundamento maior na trama deles. Com traço e cores fortes, além dos icônicos golpes do game, “Street Fighter II” pode ser considerada uma boa adaptação que, além de se manter fiel às origens, acrescentou novos elementos aquele universo. O único problema foi sua divulgação na época de lançamento nos Estados Unidos, já que, devido a algumas cenas mais fortes de luta e até de nudez, ganhou uma censura de 16 anos, mesmo com cortes.

Um ano depois, em 1995, chegava aos cinemas norte-americanos uma das maiores pérolas da história das adaptações e do cinema: ”Street Fighter: A Batalha Final”, um dos melhores piores filmes de todos os tempos! (Chegarei ao porque dessa afirmação logo mais…)

A trama mostra Guile como protagonista, sendo um oficial do exército que está atrás de Bison, o chefe da organização criminosa Shadaloo, que raptou um grupo de cientistas e quer 1 bilhão de dólares para libertá-los. Chun-Li é uma repórter que tem motivos ocultos para também querer encontrar Bison e Ryu e Ken são dois trambiqueiros que se envolvem nisso tudo.

O roteiro, escrito por Steven E. de Souza (responsável pelo roteiro do clássico “Duro de Matar”), é qualquer coisa, menos Street Fighter. Acredito que Steven (também diretor) sequer chegou a se preocupar em pesquisar sobre o que estava escrevendo afinal, tudo bem, é um jogo de luta, mas ainda assim há um mínimo com o que se preocupar, como a nacionalidade dos personagens, o que eles fazem e suas aparências. Tudo é tão desvirtuado do material original que fica complicado comparar esse filme a Street Fighter.

Tirando Bison e Guile – que continuam o que são no original – todo mundo muda: Chun-Li vira uma repórter, Ryu e Ken se tornam malandros, Dee Jay e E. Honda são ajudantes da repórter, Dalshim fica cabeludo e se torna um cientista. Sem contar a história, que parece não ter sido criada pensando em Street Fighter, mas sim feita como outra qualquer na qual decidiram encaixar apenas os nomes dos personagens do game.

O elenco também é algo deplorável, com Jean Claude Van Damme encabeçando como protagonista e Raul Julia como o vilão. Os dois são claramente os que mais se divertem com tudo aquilo, sempre se esforçando pra fazer caretas canastronas.

O filme é horrível – como adaptação, pior ainda – mas considero que seja uma daquelas produções que, de tão ruins, dão a volta e ficam boas (mesmo que só um pouco). Era pra ser um filme de ação/aventura, mas a construção ficou tão grosseira que se tornou uma comédia, uma paródia dos filmes de ação dos anos 90 – tanto que foi indicado a duas categorias no Saturn Awards daquele ano: Melhor ator coadjuvante para Raul Julia e Melhor filme de Ficção Cientifica.

* caso você vá assistir, fica a observação: há uma cena pós-créditos.

Em 1999 e 2005 foram lançadas duas animações, ”Street Fighter Alpha: The Movie” e ”Street Fighter Alpha: Generations”, respectivamente. Direto para o mercado de home vídeo, ao contrário dos outros filmes, essas duas fizeram pouco alarde e não foram lançadas mundialmente, se restringindo apenas a versões em japonês, inglês e espanhol. Mas elas não marcam o fim da saga nos cinemas: falta falar, ainda, sobre um terceiro filme.

Em 2009, em uma tentativa de criar uma espécie de reboot para a série, onde cada personagem iria ganhar um filme próprio, chega aos cinemas ”Street Fighter: A Lenda de Chun-Li”.

A trama foca-se, como o título diz, na história de Chun-Li desde sua infância, quando seu pai foi raptado por Bison. Mais velha e com vontade de vingança, ela vai para Bangoc para enfim, acertas contas com o vilão.

Com o roteiro de Justin Marcas e dirigido por Andrzej Bartkowiak, nada nesse filme funciona. A história é fraca demais e carece de ação e ritmo, chegando ao ponto de ficar cansativo e arrastado, mas maior problema é a ambientação do filme que, embora tente levar o espectador para um mundo mais real, mais crível, foge de todo esse aspecto quando iniciam-se as batalhas e o treinamento de Chun-Li, onde ignora-se tal fato e golpes incríveis e poderes são deferidos.

O próprio elenco foi mal escalado, com Neal McDonough sendo Bison, criando um contraste enorme com sua contraparte do game; e Kristin Kreuk como Chun-Li, algo que não funciona uma vez que a atriz é desprovida de corpo e carisma, elementos que fazem parte da personagem dos games e do primeiro filme.

Essa terceira ida aos cinemas custou 50 milhões de dólares e rendeu míseros 8 milhões nos Estados Unidos, sendo, pessoalmente, a pior adaptação de Street Fighter - sim, pior que o filme de 95.



O Vencedor



Adaptar games de luta para o cinema é uma das maiores besteiras existentes pois, por mais que haja uma história, ela nunca vai ser complexa ou interessante o suficiente para virar um filme visto que o objetivo do game é a luta em si.

Quando se leva para os cinemas um Street Fighter, por exemplo, certos elementos de roteiro e personagens precisam ser adicionados para dar um background maior e é exatamente isso que a animação de 94 fez, e até por isso seja a melhor adaptação da franquia, ao combinar elementos do game com outros novos.

O filme de 95 é ruim demais, mas ainda assim tem seu valor já que é o último filme de Raul Julia e conta com a impagável imagem final, do elenco reunido comemorando. Por fim, o outro filme em live-action, de 2009, é horrível visto que tudo destoa e colabora para um resultado pífio. Talvez seja até por esse motivo que não há mais nenhuma menção para um vindouro filme.

A franquia nos cinemas tomou um combo de Shoryuken com Hadouken e perdeu a batalha!


Street Fighter

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“Game over.”









Artigo redigido por Artur Andrade, ex-colunista do Cine Splendor.


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