O Vídeo de Carne e as Cabeças Explosivas




Se você estava acostumado a ler toda a “Janela Indiscreta” toda sexta-feira, hora de mudança no Cine Splendor: agora, todas as semanas vou falar sobre o melhor do cinema autoral, independente, cult, alternativo ou qualquer outra denominação que você, querido leitor, queira dar. Surge o espaço para cinematografias de todos os lugares e todas as épocas. Pegue o controle remoto e sintonize no “Videodrome“!

Nada mais justo do que começar a coluna falando sobre o pai da criança! Além de ser um dos meus diretores favoritos, David Cronenberg dirigiu “Videodrome“, e nessa estreia falamos desse e de outro cult clássico de sua autoria: “Scanners“.

Cronenberg é um dos maiores cineastas contemporâneos. Mesmo quando erra – como em sua mais recente produção – o diretor mantém-se autoral e assina cada um de seus filmes, coisa muita rara no cinema moderno e que flerta com o comercial. Costumo dividir a carreira do diretor em três fases. A primeira – mais longa e interessante – começa em “Stereo” (seu primeiro filme) e vai até “A Mosca”, é a fase mais radical do diretor, em que ele usa o corpo como metáfora para contar suas histórias. É a fase do “corpo como arma”.
A segunda fase da carreira de Cronenberg começa em “Mistérios e Paixões” e vai até “Spider”, e se caracteriza pelo estudo da mente humana, suas paranóias e medos. Cronenberg parece ter encerrado uma terceira fase, que marcou a discussão sobre o lugar do homem no mundo, colocando-o em conflito com seus ideais (se incluem ai “Marcas da Violência”, “Senhores do Crime” e o já referido último filme “Um Método Perigoso”).

Dessa fase mais criativa, Cronenberg “pariu” alguns clássicos e filmes de grande apreço da crítica e do público que os conhece. A metáfora da arma biológica atinge seu auge para mim em “Scanners” e “Videodrome”, filmes parecidos e realizados em um intervalo de dois anos.

“Scanners”, de 1981, conta a história de Cameron Vale, um sem teto com poderes telecinéticos que faz parte de um grupo de homens e mulheres chamados de Scanners. Usando a mente, Vale e os demais Scanners podem subverter a vontade humana controlando o corpo e a mente dos atingidos por seu poder. Interpretado por Stephen Lack, Vale é o mais próximo de herói que o filme apresenta. Guiado pelo doutor Paul Ruth (o veterano Patrick McGoohan da mitológica série de TV “O Prisioneiro” e dos longas “Fuga de Alcatraz” e “Coração Valente”, entre muitos outros), Vale é o encarregado pela caça de um Scanner fugitivo: o violento e cruel Darryl Revok (Michael Ironside, de uma série de filmes como “Vingador do Futuro”, “Tropas Estelares” entre outros).

O filme ainda funciona, graças ao clima de intriga que coloca as corporações como as vilãs da história. Encravado no início dos anos oitenta, ainda guarda marcas do cinema independente norte-americano dos anos 70, que influenciou muita gente no mundo todo, incluindo ai o canadense Cronenberg, que vinha do terror “Filhos do Medo”, e que aqui consegue realizar seu primeiro trabalho realmente de destaque, tanto como crítica social ou puro entretenimento.

Os efeitos visuais e de maquiagem envelheceram, é verdade, mas ainda funcionam se levarmos em conta a data do filme (coloquemos em contexto, por favor). O que ainda permanece intacto são seus bons personagens, como o doutor Paul Ruth, retratado como uma figura de autoridade, enfatizando cada palavra dita, como se desse vida própria a cada sentença, hipnotizando o espectador. A atuação contida de Stephen Lack é correta e não compromete e Michael Ironside apela para sua “cara de maníaco” típica de muitos de seus personagens posteriores compondo Revak como um homem intenso em seus objetivos.

Outro acerto do filme é o ambiente que cerca os personagens: o design de produção aposta no concreto que povoa as grandes cidades junto ao clima nublado, dando maior impessoalidade e frieza a narrativa. A direção de arte por sua vez, usa muitas cores “mortas”, como preto, cinza, marrons sujos e beges – tudo que possa tirar qualquer possibilidade de humanizar os personagens. Fora isso, há também o discurso de que as corporações são mais importantes e perigosas do que qualquer organização política, algo ainda ressonante, que aliado ao roteiro cheio de plot twists e de final dúbio fazem de “Scanners” muito mais do que explosões de cabeça.

Dois anos depois, “Videodrome”, a obra prima de Cronenberg, e uma das mais contundentes críticas ao “vale tudo” pela audiência na televisão, foi lançada. Ancorada à figura trágica de Max Renn (James Woods), um sujeito perdido e que vive em meio ao lixo que chama de apartamento, “Videodrome” conta a história desse dono de um minúsculo canal de televisão sempre em busca do pior e mais sórdido para incluir em sua programação. Um dia, porém, recebe o sinal de um perturbador programa sem enredo, sem atores e sem muito sentido, em que a violência se “justifica” pela própria vontade do ser humano em ser cruel. Uma vez exposto há doses cada vez maiores de “Videodrome”, acaba entrando em uma espiral de alucinações mais do que perturbadoras.

Cronenberg, sempre atingido pela crítica e a censura por seus filmes visualmente agressivos, aqui deu seu recado direto e claro sobre a violência. É o ápice do radicalismo do diretor em relação ao seu discurso do animal tecnológico, a nova carne, uma mistura de sinapses televisivas e instinto selvagem – isso tudo pensado nos anos 80, quando o mais intenso que o espectador podia ter era a passividade de uma tela de televisão. Imagino oque o diretor faria se “Videodrome” fosse realizado hoje, com a interatividade que a internet proporciona a todos os seres humanos.

Novamente dotado de efeitos de maquiagem fantásticos, a transformação de Max em “nova carne” é claramente sexualizada, com o personagem desenvolvendo uma cavidade abdominal que se assemelha diretamente a uma vagina. Talvez Cronenberg diga aqui que a “nova carne” transforma homens e mulheres em criaturas únicas, cegas diante de um novo altar. Além do mais, o cineasta parece prever uma série de elementos comuns nos dias de hoje, tais quais: reality shows, vídeos virais (o que de fato “Videodrome” é), avatares, sexo virtual entre muitos outros.

A espiral de alucinações que Max embarca é digna do mais tenebroso dos pesadelos, daqueles em que uma ação aparentemente banal se liga a outra situação absolutamente escabrosa. Cronenberg é radical nessa experiência, pois conduz o filme como um thriller investigativo, até comum, com elementos críticos sobre a mídia e o abuso de violência pela mesma, para atingir os nossos instintos mais primitivos em busca de audiência. No entanto, rompe de forma abrupta essa idéia e nos lança em uma meia hora final que só pode ser definida como alucinação coletiva.

Onde está a realidade? Diante da tela da televisão? Até que ponto o real e o imaginário podem co-existir? E isso é saudável? A imersão na violência sem sentido realmente pode nos transformar em portadores da “nova carne”?
Cronenberg, como sempre, não responde diretamente. Tanto em “Scanners” como em “Videodrome” o diretor deixa para o público (os reais atingidos por seus filmes) a decisão sobre vitoriosos e perdedores de uma guerra travada nas mentes e nas telas do mundo.


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Artigo redigido por Alexandre Landucci, ex-colunista do Cine Splendor.


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