Como um sujeito de voz anasalada – quase asmática -, baixinho, nada bonito, sem ceder um milímetro para o “establishment”, seguindo sempre suas próprias regras, tornou-se alvo de reverência? Simples, com talento. Puro e simples talento, capaz de conquistar platéias, corações e almas (caso acredite que elas existam). Dessa forma, há mais de cinquenta anos, Robert Allen Zimmerman é um dos maiores nomes da música mundial, responsável por algumas das mais brilhantes páginas da história sonora do mundo.Ao lado de outro gênio – Martin Scorsese – Bob Dylan fala sobre suas raízes e do surgimento de sua arte, sucesso e fama no excelente “No Direction Home: Bob Dylan”, um documentário originalmente produzido como um especial para o canal de TV norte-americano PBS.
No longa, Dylan diz que cantava procurando encontrar seu lugar no mundo, pois sentia-se um estrangeiro, um eterno imigrante sem lugar nenhum, sem direção. Inspirado, quando jovem, pelos escritos de Jack Kerouac e quase obcecado pela figura do excêntrico cantor folk Woody Guthrie, ele relembra sua infância em uma cidade pequena, uma fria e praticamente isolada localidade que vivia em função de uma mina de ferro, lembrando-se ainda de empregos em lojas locais (inclusive uma dos pais), nas quais sempre se sentiu preso a uma realidade castradora que o impedia de almejar nada maior. Ele é o reflexo de muitos de sua geração, e apesar de se recusar a se colocar como porta-voz de uma época, também pode ser visto dessa forma, já que sua história de vida é muito próxima à dos baby boomers, a primeira geração nascida no século XX que, quando cresceu, teve ao seu alcance um poder aquisitivo maior do que as gerações de outrora.
O documentário (com mais de três horas de duração) é ancorado na figura de Dylan e em uma entrevista bastante franca na qual o astro vai se “auto dissecando”, mostrando sem pudor todas as influências que o formaram como artista e homem. No filme tudo é mostrado, desde os já citados Jack Kerouac e sua estrada sem fim, passando por sua fixação passional pela obra de Woody Guthrie, pela cantora de blues Odetta – e sua exótica forma de criar melodias ritmadas que faziam o uso da bateria desnecessária -, até a mudança de nome para Bob Dylan (que o cantor nunca confirmou que foi em homenagem ao poeta Dylan Thomas) e sua chegada em Nova York, no meio da explosão beat, quando o artista teve a chance de conhecer lendas da literatura e artes americanas como Joan Baez, Allen Ginsberg entre outros. Acompanhando essa imersão, Scorsese usa uma espécie de vírgula musical, uma rima temática que vai encerrar seu filme e que apresenta – de forma bastante orgânica – o futuro daqueles eventos narrados. É interessante e bastante inteligente a forma como o diretor mistura o auge da popularidade do cantor com apresentações em Londres e depoimentos de pessoas que detestavam sua nova fase, que abandonara os violões acústicos e gaitas de boca para se apresentar com uma banda de pegada blueseira.
Outro destaque do longa é o desfile de grandes nomes – representados com pequenos trechos de suas obras – da música americana, fazendo do filme ainda mais impactante. Podemos ouvir Hank Williams, Johnny Ray, Will Pierce, Muddy Waters e Gene Vincent & the Bluecaps, entre muitos outros que também serviram se influência musical para a formação de Dylan.
Nessa obra de raiz, outro destaque importantíssimo é a descoberta e aproveitamento de muito material de época como os filmes “The Festival”, de Murray Lerner ,que captou três anos do famoso festival de folk music em Newport. Quando sobe ao palco do festival pela primeira vez, em 1964, Dylan é apaixonadamente acolhido com seu ar maroto e suas músicas “de protesto” para, no ano seguinte, ser sumariamente vaiado ao apresentar canções de seu mais recente álbum, o intenso “Subterranean Homesick Blues”, o primeiro a incluir “eletricidade” nos álbuns de Dylan.
Ainda sobre o álbum, é a partir dele que as imagens que funcionam como vírgulas sonoras (lembram delas?) foram extraídas. O documentário clássico “Don’t Look Back”, de D.A. Pannabaker, é outro que serve de material indispensável para a composição do filme. Cru, ácido, amargo na visão dos fãs sobre seu ídolo, é um dos grandes momentos do filme. “Don’t Look Back” acompanha a passagem de Dylan pela Inglaterra e se estende não só as apresentações (marcadas pelas muitas vaias), mas pela relação problemática com os fãs que não aceitavam a mudança no som do artista.
Essa também é a forma com que Scorsese consegue atacar a visão do fã, que não respeita as escolhas do ser humano chamado de artista. É um ótimo exemplo sobre aquela ideia de que, depois de um determinado ponto, o artista deixa de ser o verdadeiro dono de sua vida, que passa a ser guiada e comandada pelo desejo do público, levando seu protagonista de “cantor de protesto” a pária e mentiroso. Bastaram dois anos para que Dylan fosse do céu da popularidade, ao ódio dos mais exaltados e, depois da turnê de divulgação mostrada no filme, não é questionável o porque do cantor ficar oito anos sem subir nos palcos, visto que é bastante honesto e sincero quanto a seu eventual papel como porta-voz e líder de alguma coisa. Seja pelos momentos recuperados de entrevistas coletivas absurdamente surreais – com direito a perguntas de jornalistas que sequer haviam ouvido o trabalho do artista -, seja pela análise posterior de Dylan e de Joan Baez – que por um período tornou-se a fiel companheira de Bob pelas apresentações em solo americano -, Dylan nunca se coloca como líder de coisa alguma. Apesar de ser nevrálgico em sua análise social, ele nunca quis seguir ninguém, nunca quis que os outros dissessem a ele onde ficar, com quem falar, como e o que cantar. Era – quase que patologicamente – um espírito livre, alguém que não poderia, nem deveria ser doutrinado, embora as tentativas para isso não tenham sido poucas.
Claro que as pessoas têm todo o direito de gostar ou desgostar da obra de um artista caso ele não lhe agrade, e a discussão do filme nem é essa, mas sim a de deixar o homem por trás de o artista dizer o que pensa o que quis dizer e o que pretendia fazer quando compunha suas canções. “No Direction Home” é um relato verdadeiro, longo e nunca cansativo, que devassa a origem de um mito, tirando dele todo o verniz que dá uma aura de divindade ao artista, desnuda o homem e nos dá a chance de ouvir dele algo mais do que canções que mudaram o mundo (o que por si só, já é inesquecível).
Ficha Técnica
No Direction Home: Bob Dylan
No Direction Home: Bob Dylan (2005 | 208 min.)
Gênero: Documentário
Direção: Martin Scorsese
Um olhar para o surgimento de Bob Dylan, de seu primeiro álbum, em 1961, ao sucesso pop de 1966.
Artigo redigido por Alexandre Landucci, ex-colunista do Cine Splendor.







