Quando pensamos em figurinos logo imaginamos vestidos pomposos, “de época“, caracterizações verossímeis de um passado distante ou até mesmo de uma fábula atemporal. E é claro que um dos papéis fundamentais da indumentária no cinema é situar o espectador em um momento histórico, uma década passada ou até mesmo um tempo futuro; mas também podemos enxergar o figurino de uma forma mais complexa: parte intrínseca da personalidade de um personagem e testemunha de sua evolução psicológica.
Assim como nós – seres reais em busca de sentido – todo personagem tem uma história, desejos e, em sua forma mais clássica, passa por situações que acarretam em mudanças internas e até mesmo externas. Como no cinema tudo é visual essas mudanças, mesmo que sutis, devem transparecer no figurino – e é exatamente essa sutileza que fará tudo parecer verdadeiro. É certo que, para o trabalho do ator, o figurino é essencial, os processos de envelhecimento – de transformar uma roupa nova em uma peça que contenha a ação do tempo e, portanto, uma história – é parte fundamental na construção do que vemos em cena. Toda pesquisa, ensaios e preparação de elenco, se transformam no momento em que o ator “veste” aquele personagem, agora mais seu do que nunca.
Em “Maria Antonieta” (2006), Kirsten Dunst interpreta a Duquesa austríaca que tem a obrigação de casar-se com o herdeiro do trono francês para concretizar uma aliança entre os dois países. No auge da sua juventude e inocência, com apenas 14 anos de idade, ela é levada ao encontro do seu futuro marido e, em uma espécie de ritual na fronteira do país, despe-se de tudo o que pertence a Áustria e torna-se, a partir daquele momento, a autêntica Delfina da França. Maria é então vestida com os costumes franceses, tecidos, cores e brocados que a transformam em símbolo da nobreza – tudo com uma simples troca de roupa!
O figurino sugere, após este momento, a busca de adequação da jovem futura rainha na sua nova pátria, criando uma autoimagem icônica e exuberante como forma de esconder – debaixo de milhares de camadas de tecidos, perucas, pó e rouge – suas frustrações pessoais, como o desinteresse do marido e a pressão de gerar um novo herdeiro.
Outra personagem que também se esconde, desta vez em tubinhos pretos Givenchy e inúmeras jóias e adereços, é Holly Golightly, interpretada por Audrey Hepburn no eterno “Bonequinha de Luxo” (1961). Nesta clássica comédia romântica dos anos 1960, Holly mantém uma imagem alegre e espontânea, idealizada pelos homens devido ao certo romantismo boêmio e personalidade encantadora. Seu figurino reflete a segurança e autoconfiança de uma mulher independente, que reconhece e sabe utilizar sua imagem em próprio benefício; mas tudo não passa de ilusão visto que, como acompanhante de luxo, seus clientes sustentam seu estilo de vida e sua imagem sempre perfeita. Luvas, óculos, chapéus exuberantes e os mais belos vestidos cobrem, como um escudo, o corpo delicado da frágil personagem.
Ao decorrer da trama a verdadeira Holly dá pistas de sua existência e seu figurino vai mudando. Deixa-se de lado toda a pompa e mostra-se sobriedade com calças e casacos em tons neutros, cabelos presos de forma despretensiosa em um lindo encontro com o amor e a liberdade.

Tão inocente quanto a jovem Maria Antonieta e tão frágil quanto Holly Golightly, Nina Sayers (Natalie Portman) é a personificação da dicotomia do ser humano. Em “Cisne Negro” (2010), a bailarina perfeccionista de corpo esguio como de uma criança, vive isolada nos corredores da companhia de dança, ensaios e no refúgio de seu quarto, sonhando em um dia ser a melhor bailarina dentre todas. Assim, quando é escolhida para o papel principal da nova montagem de “O Lago dos Cisnes“, Nina é obrigada a enfrentar seu lado obscuro, intensamente reprimido, chegando ao extremo.
Em meio a confusão mental, a pressão do diretor, a superproteção materna e o medo de ser substituída, a personagem se liberta. Sentada em frente ao espelho enxugando algumas poucas lágrimas ao mesmo tempo em que pinta o rosto, Nina personifica o Cisne Branco. O figurino esplendoroso, de cor clara, com plumas e cristais ainda nos dá indícios da delicadeza e fragilidade da personagem, mas Nina ainda está fragmentada e, ao encarnar sua outra metade, protagoniza a verdadeira metamorfose: agora de preto, com mãos e olhos pintados como plumas prateadas, ela transforma-se no Cisne Negro.
Ao contrário de Holly Golightly e Maria Antonieta, duas personalidades muito fortes e estruturadas, Nina Sayers só alcança a perfeição quando sua personalidade é desconstruída.
Em suma, desenvolver um figurino memorável vai muito além da mera caracterização. Maria Antonieta, Holly Golightly e Nina Sayers são apenas três belos exemplos de como o figurino pode dar suporte, não só ao roteiro, mas principalmente à construção dos personagens. É lindo poder enxergar vida em uma peça de roupa ou em detalhes que nada contariam em outra história, assim como poder observar as mudanças psicológicas – ou mesmo cronológicas – interferindo na indumentária, desenvolvendo novas personalidades e transformando os personagens por completo. Nenhum detalhe é arbitrário, tudo deve ter um motivo. Pensar em figurino de cinema é pensar nas sutilezas da vida, nas marcas do tempo e nas cicatrizes dos espíritos.











One thought on “Vestindo o Personagem”